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Governos de Esquerda viraram “gerentes das Mazelas do neolibealismo”, disse Lula na 1ª Reunião da Mobilização Progressista Global

Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade.” Extrato do Discurso de Lula na Espanha, na 1ª Reunião da Mobilização Progressista na Espanha. O Discurso é imperdível e as lições dele precisam ser assimiladas pelo PT e pela esquerda, sob pena de naufragar como naufragou a Social Democracia Europeia na década de 1990. Por isto, reproduzo o imperdível Discurso na íntegra a Seguir:

Eu gostaria de começar a minha fala dando os parabéns ao presidente [do Governo da Espanha] Pedro Sánchez pela organização extraordinária de um evento progressista que tenta mostrar ao mundo que a democracia não morreu, que tenta mostrar ao mundo que ninguém precisa ter vergonha de ser progressista ou de ser de esquerda. Ninguém precisa ter medo no mundo democrático de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade.

E o meu elogio, meu querido Pedro, é pelo fato de você ter tido a coragem de não permitir que os aviões de guerra dos Estados Unidos saíssem daqui para atirar no Irã. Eu estou me cuidando aqui porque eu tenho discurso por escrito e eu fico com vontade de falar de improviso, mas eu preciso falar com muita responsabilidade porque nós estamos fazendo um movimento muito sério que não pode terminar no nosso discurso aqui e voltar a acontecer somente quando a gente tiver a nossa próxima reunião no México.

O que nós estamos fazendo aqui é o começo de um movimento que tem que agir todo santo dia, durante toda semana, todo mês e durante 365 dias por ano, para que a gente restabeleça a coisa mais sagrada no mundo, que é a democracia e o multilateralismo.

O nome desta iniciativa – Mobilização Global Progressista – diz muito.

Cada uma dessas três palavras carrega um programa de ação.

É importante entender o que elas significam.

Estou diante de cinco mil pessoas que se identificam como progressistas.

Desde sempre a política se dividiu em dois campos.

De um lado, aqueles que acham que os interesses do indivíduo se sobrepõem aos da coletividade.

E de outro, os que acreditam que o bem-estar de cada um depende da garantia de uma vida digna e decente para todos.

Essa divisão já teve muitos rótulos.

Direita e esquerda, conservadores e progressistas.

Mas o extremismo impõe um novo desafio.

O campo progressista conseguiu avançar na pauta dos direitos.

A situação dos trabalhadores, das mulheres, das pessoas negras e de muitas minorias é melhor hoje do que foi no passado.

Não é coincidência que a reação das forças reacionárias tenha vindo de forma tão violenta, com a misoginia, o racismo e os discursos de ódio.

Mas o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante.

O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança.

Provocou crise atrás de crise.

Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia.

Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo.

Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade.

Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade.

Nós nos tornamos o sistema.

Por isso não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.

O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência.

Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro.

Não podemos trair a confiança do povo.

Mesmo que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós propomos.

Ela quer comer bem, morar bem.

Escolas de qualidade, hospitais de qualidade.

Uma política climática séria e responsável.

Uma política de meio ambiente e cultura.

Ela quer um mundo limpo e saudável.

Um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada.

Um salário que permita uma vida confortável.

A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo.

Canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras: falando das mulheres, falando dos negros, falando da população LGBTQIA+, falando dos imigrantes. Ou seja, todas as pessoas mais necessitadas passam a ser vítimas do discurso de ódio que essas pessoas fazem.

Nosso papel é apontar o dedo para os verdadeiros culpados.

Um punhado de bilionários concentra a maior parte da riqueza mundial.

Eles querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá.

Alimentam a falácia da meritocracia.

Mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir.

Pagam menos impostos, ou nada, e exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam algoritmos.

A desigualdade não é um fato. É uma escolha política.

O que faz de nós progressistas é escolher a igualdade.

Nosso lema deve ser estar sempre do lado do povo.

Essa luta precisa ser global.

De nada adianta manter a casa em ordem em um mundo em desordem.

Os senhores da guerra jogam bombas em mulheres e crianças.

Gastam em armas bilhões de dólares que poderiam ser usados para acabar com a fome, resolver o problema energético e o problema da saúde.

O Sul Global paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou.

É tratado como quintal das grandes potências.

É sufocado por tarifas abusivas e dívidas impagáveis.

Volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas.

Ser progressista na arena internacional é defender um multilateralismo reformado.

É defender que a paz prevaleça sobre a força.

É combater a fome e proteger o meio ambiente.

É restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes.

É criar um sistema em que as regras valham para todos.

Em que países desenvolvidos e em desenvolvimento estejam em pé de igualdade no Conselho de Segurança, no Banco Mundial, no FMI e na OMC.

Esse não é um esforço só de governos.

A internet se tornou um campo de batalha.

Disputar as redes virtuais é uma tarefa incontornável.

Mas a disputa tem que ir além das telas.

Tem que ser levada para as universidades, para as igrejas, para os sindicatos, para as associações, para os bairros e para sociedade como um todo.

A extrema direita grita, mente e ataca.

Não podemos ter medo de falar mais alto e com muita responsabilidade.

Não devemos ter medo de contrapor argumentos.

O risco que a extrema direita representa à democracia não é retórico, é real.

No Brasil, ela planejou um golpe de Estado.

Orquestrou uma trama que previa tanques nas ruas e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral.

O Papa Leão 14 disse que a democracia corre o risco de se tornar uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas.

Nosso papel é desmascarar essas forças.

Desmascarar aqueles que dizem estar ao lado do povo, mas governam para os mais ricos.

Que se dizem patriotas, mas põem a soberania à venda e pedem sanções contra o seu próprio país.

Que proclamam defender a família, mas fecham os olhos para a violência contra as mulheres e o abuso sexual de crianças.

Que se declaram donos da verdade, mas espalham mentiras e desinformação.

Que se consideram homens de Deus, mas não têm amor ao próximo.

Que falam em liberdade, mas perseguem quem é diferente.

Como canta Joan Manuel Serrat:

“O caminho se faz ao caminhar”.

A democracia não é um destino, é uma construção cotidiana.

Ela precisa ir além do voto e trazer benefícios concretos para a vida das pessoas.

Não há democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo prato de comida.

Não há democracia quando um neto perde o seu avô na fila de um hospital.

Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos.

Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor da sua pele. Quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher.

Temos que substituir o desalento pelo sonho. O ódio pela esperança.

A Mobilização Global Progressista tem uma missão importante: recuperar a capacidade das forças progressistas de projetar um futuro melhor.

Um futuro com justiça social, igualdade e democracia.

Esses três termos – mobilização, global e progressista – precisam andar juntos.

Não como palavras de ordem, mas como realidade viva.

Queria dizer para vocês uma coisa, que eu preciso falar um minutinho de improviso, desculpa, companheiro.

Eu ando muito inquieto. Eu tenho 80 anos de idade. Eu comecei a fazer política com 30 anos de idade. 21 anos da minha vida eu passei dentro de uma fábrica. Eu saí de uma região muito pobre, no meu país, como milhões de brasileiros, para não morrer de fome.

Fui comer pão pela primeira vez com sete anos de idade. E aprendi a fazer política muito tarde. E quando eu aprendi política, eu aprendi porque eu descobri que dentro do Congresso Nacional não existia representante do povo trabalhador, que eu imaginava que era a razão pela qual existia a classe política.

E graças à democracia no meu país, que nós implantamos depois de derrubar 23 anos de regime militar – só eu fui cassado duas vezes como presidente do sindicato – graças à democracia, pela primeira vez no país, o Brasil elegeu um operário presidente da República sem diploma universitário, apenas com curso técnico de torneiro mecânico. E eu queria ser eleito para provar que a inteligência não está ligada à quantidade de anos de universidade, a isto está ligado o conhecimento.

A inteligência é uma coisa mais sagrada que a gente conquista no aprendizado dentro de uma fábrica ou com a sociedade brasileira. Tudo o que eu sou na vida, eu devo a uma mãe que nasceu e morreu analfabeta. Morreu sem saber fazer um O com copo.

Mas o que eu sei de caráter e de defesa de comportamento, eu aprendi com essa mulher. E por que eu estou dizendo isso para vocês? Porque eu aprendi na vida política, admirando a democracia americana. Eu acreditei muitas vezes que os Estados Unidos eram o país da oportunidade.

Quantos milhões de brasileiros foram para os Estados Unidos? Eu nasci na política, no momento de uma guerra fria e nós não queremos mais guerra fria com ninguém. Nós não queremos guerra fria entre a China e os Estados Unidos. Nós queremos liberdade, nós queremos livre comércio, nós não queremos protecionismo.

A esquerda progressista foi vítima do discurso do consenso de Washington. Muita gente nova aqui não se lembra, mas quem tem 80 anos, como eu, se lembra, porque já tinha bons anos nos anos 80. E eu agora fico analisando o que é que está acontecendo no mundo.

O que está acontecendo no mundo é que a querida Nações Unidas, que foi criada depois da Segunda Guerra Mundial, que criou um Conselho de Segurança com cinco membros permanentes para cuidar da paz, para cuidar da cordialidade, da fraternidade, se transformaram em cinco senhores de guerra. Porque o Conselho de Segurança não permite que as coisas aconteçam. Quando um aprova uma coisa, o outro veta.

E nós estamos vivendo em que mundo? Hoje nós temos uma quantidade de conflitos armados que é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Hoje nós temos guerra. A invasão do Iraque foi uma mentira.

Cadê as armas químicas que o Saddam Hussein? Nunca encontraram. A invasão pela França e pela Inglaterra na Líbia foi outra mentira. Que mal causava o Gaddafi naquele instante histórico da nossa humanidade? A invasão e o genocídio que foi feito por Israel em Gaza é outra mentira muito grande. E agora o bombardeio de Israel ao Líbano, com que pretexto? E agora mais, a invasão dos Estados Unidos ao Irã, a que pretexto?

Eu queria, governador de Minnesota, lhe dizer uma coisa. Em 2010, eu fui ao Irã junto com a Índia, junto com a Turquia, negociar com o Ahmadinejad [Mahmoud, ex-presidente do Irã] o acordo para que ele não pudesse enriquecer o urânio acima daquilo que o Brasil enriquecia para fins pacíficos, porque no Brasil está na nossa Constituição. O Brasil está proibido de produzir e fabricar armas nucleares. Isso é da Constituição.

E nós fomos lá para convencer a Ahmadinejad e o Khamenei [Ali, ex-líder supremo do Irã]. E depois de dois dias, nós conseguimos um acordo. Um acordo que foi feito com base numa carta manuscrita que o Obama [Barack, ex-presidente dos EUA] me mandou.

Depois de dois dias, o Ahmadinejad aceitou fazer o acordo. Quando nós publicamos o acordo, eu imaginei que nós íamos ser elogiados, porque o Irã não ia mais enriquecer o urânio e a parte que ele ia enriquecer ia mandar para a Turquia, para a Turquia guardar. O que aconteceu, companheiro Pedro Sánchez? A União Europeia e os Estados Unidos não aceitaram o acordo.

E agora estão atrás, outra vez, de construir a ideia de que o Irã iria construir bomba atômica. Eles não iriam construir bomba atômica. Nós precisamos acabar com essa história de contar mentiras sobre as pessoas para depois destruir as pessoas.

A América Latina é vendida como se fosse um mundo do narcotráfico. O mundo árabe é vendido como se fosse um mundo do terrorismo. E quem é que é bom nesse mundo? Quem é que é bom? A gente tem que entender uma coisa muito importante.

Muitas vezes nós fomos vítimas da nossa inocência política. Quantas vezes, Pedro, a gente ganha eleições e depois a imprensa, depois o sistema financeiro, depois os acadêmicos conservadores escrevem artigos, matérias na imprensa, obrigando a gente a tentar destruir aquilo que foi a razão da nossa eleição. E a gente vai ficando com medo e a gente vai tentando agradar o mercado, a gente vai tentando agradar o empresário, e o que acontece é que nós vamos ficando desmoralizados.

Então eu penso que, nesse encontro aqui, eu queria dizer ao presidente Trump, ao presidente Xi Jinping [China], ao presidente [Vladimir] Putin [Rússia], ao presidente [Emmanuel] Macron [França] e ao primeiro-ministro da Inglaterra [Keir Starmer], que são os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU: pelo amor de Deus, cumpram com as suas obrigações de garantir a paz do mundo. Convoquem uma reunião e parem com essa loucura de guerra, porque o mundo não comporta mais.

Nós não queremos muito. O povo pobre não quer muito. Ele não quer nem tomar as coisas dos ricos. O povo pobre quer ter direito a um emprego decente, ele quer ter direito a um trabalho decente, ele quer ter direito a morar numa casa boa, ele quer ter direito a estudar, ele quer ter direito que o seu filho possa ser doutor, igual o filho do seu patrão, igual o filho da sua patroa.

Ele quer o direito de ter um sistema de saúde decente. É a única coisa que nós queremos e tudo isso está na Bíblia, tudo isso está na Constituição de cada país, tudo isso está na Declaração Universal do Direito dos Humanos da ONU. E por que que não se cumpre?

Eu queria terminar dizendo uma coisa para vocês. Eu tenho 80 anos de idade. Eu tentei, presidente Pedro Sánchez, meu amigo Zapatero [José Luis Rodríguez, ex-presidente do Governo da Espanha], eu tenho conversado muito com Deus. Eu tenho dito para Deus que eu quero viver 120 anos, porque é preciso provar uma coisa.

Eu quero provar uma coisa. Eu quero provar que a gente não fica velho, a gente não fica velho porque os anos passam. A gente não vai conseguir parar a rotação da Terra.

Então os anos vão passar. Hoje eu tenho 80, o ano que vem vou ter 81. Mas isso não é o que envelhece as pessoas.

O que envelhece as pessoas são as pessoas perderem a motivação, perderem uma causa. Se todos nós levantarmos de manhã com uma causa, para defender uma causa, a gente não fica velho. Eu digo para vocês que eu me sinto hoje igual quando eu tinha 50 anos de idade, porque eu tenho uma causa.

A minha causa é a democracia. A minha causa é a liberdade. A minha causa é a igualdade.

A minha causa é garantir que todas as pessoas sejam respeitadas. Um país pequeno, um país pequeno como a ilha da companheira Mia [Mottley, primeira-ministra de Barbados], tem que ser respeitado igual um país do tamanho da Índia. Ninguém é medido pela potência tecnológica, pela potência econômica ou pelos navios de guerra que tem.

Eu não quero guerra. Eu não quero guerra com o Xi Jinping, eu não quero guerra com o Putin, eu não quero guerra com os Estados Unidos, eu não quero guerra nem com você, Mia. Eu quero paz, amor e fraternidade, e ver o mundo progressivo para que o povo viva melhor e dignamente.

É isso que eu quero. A minha arma é o argumento. A minha arma é o argumento.

A minha arma é a razão. Quando o presidente Trump taxou o Brasil, dizendo que tinha déficit com o Brasil, eu mostrei um documento. Os Estados Unidos, em 15 anos, teve 410 bilhões de superávit com o Brasil.

E eu disse, ninguém vai ganhar de mim com mentira. Eu não tenho a riqueza que ele tem, eu não tenho a tecnologia que ele tem e tampouco eu tenho o navio que ele tem. Eu não quero guerra.

A única coisa que eu quero é dizer para ele que, mesmo sendo pobre, tem uma coisa que nós temos que ter, que é caráter, honestidade e decência para a gente respeitar o direito de todos. Por isso, eu queria chamar para falar o presidente do Governo da Espanha, meu amigo Pedro Sánchez.


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