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Por que a estética e narrativa derrubam Bolsonaro mais que a realidade de crimes e condenações?

Por anos, o clã Bolsonaro enfrentou denúncias pesadíssimas no mundo real. Investigações sobre ligações com milícias cariocas, esquemas de rachadinhas e intimidade com personagens do chamado “Escritório do Crime” sempre estiveram nas manchetes.

Porém, para o eleitorado fiel, tudo isso virava apenas “ruído” ou perseguição política. O impacto prático dessas denúncias na base parecia zero.
Mas bastou o vazamento de um áudio pelo The Intercept — onde o senador Flávio Bolsonaro cobra intimamente o banqueiro Daniel Vorcaro para salvar o financiamento de um filme biográfico sobre seu pai — para provocar uma crise sem precedentes e enterrar seus planos presidenciais.


Aí fica a grande ironia: por que os bastidores de um filme machucam mais uma força política do que anos de denúncias criminais graves?

O calcanhar de Aquiles do “Mito”
As denúncias de rua (como o envolvimento com milícias e crime organizado) são graves, mas costumam ser abstratas para o grande público ou acabam filtradas pela paixão ideológica.

Já o escândalo do filme ataca o verdadeiro motor do bolsonarismo: a sua narrativa.


Ao ouvir o senador conversando em tom de “parça” (“mermão”, “irmão”) com um banqueiro envolvido em fraudes bilionárias na Faria Lima, a máscara cai.

O eleitor descobre que a máquina de criar o “mito” custa caro e depende de acertos de bastidores que contradizem o discurso de moralidade e patriotismo.

O feitiço virou contra o feiticeiro. O herói não foi derrotado pelo código penal, mas sim desmistificado no próprio terreno onde nasceu: o espetáculo midiático.

A armadilha do ecossistema digital

Essa reviravolta ilustra perfeitamente o conceito de Media Life (Vida Midiática). Hoje, nós não apenas usamos as redes e a mídia; nós vivemos dentro delas. A barreira entre o mundo real e o virtual sumiu.

No passado, a política acontecia fora da TV e do jornal, e os meios de comunicação apenas transmitiam o fato. Hoje, um áudio vazado no WhatsApp ou um corte de entrevista não são a repercussão da política — eles são a própria política.

Como o debate público agora acontece 100% dentro desse ambiente digital, o julgamento das massas deixou de ser jurídico e passou a ser estético e moral.

No tribunal dos cliques, o pior deslize não é um processo na Justiça, mas sim o colapso da própria imagem.

O grupo político que subiu ao poder dominando as redes sociais agora prova do próprio veneno.

Na era da política-conteúdo, a reputação digital parece ser  o único ativo que importa. E ela pode ser desfeita na velocidade de um áudio vazado.

Sugiro a leitura do Arigo do CINEGNOSE do link a seguir:

Vorcaro e o financiamento de ‘Dark Horse’: ironias midiáticas do “crime de narrativa


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