
Quem viveu a década de 1990 no Brasil certamente se lembra do bombardeio. Comerciais de TV, grandes jornais e discursos políticos repetiam, quase em coro, uma promessa tentadora: se o Estado vendesse as empresas públicas, o cidadão ganharia serviços de primeiro mundo por preços de banana, e o governo finalmente teria bilhões para investir em saúde e educação.
Mas o que acontece quando a poeira da propaganda baixa e a realidade bate à porta?
O leitor Nelson enviou ao blog um relato potente e lúcido sobre o seu próprio processo de aprendizado e desilusão com essa agenda. Mais do que uma crítica política, o texto do Nelson é a crônica de um despertar de consciência.
Vale a pena ler o depoimento dele na íntegra:
Este comentário o Nelson escreveu ao Artigo “Absurdo!! Com privatização, cada Escola vai Custar 5 Vezes Mais aos Cofres Públicos do RS, mostra Estudo Técnico“
O Relato de Nelson: Como a Realidade Desmentiu a Propaganda .
“Foi na década de 1990, notadamente a partir do governo do entreguista-mor, Fernando Henrique Cardoso, que se iniciou, para valer, a campanha de propaganda avassaladora a favor das privatizações.
A propaganda nos prometia que a entrega de tudo o que era estatal nas mãos, para o controle, da iniciativa privada iria, como num passe de mágica, nos levar a um mundo maravilhoso de preços e tarifas mais baixos para produtos e serviços de melhor qualidade. Enfim, passaríamos a viver um quase-paraíso, com educação, saúde, saneamento públicos garantidos a todos.
A partir dali, principalmente, passei a ler o quanto podia sobre privatizações que estavam sendo feitas, aqui no Brasil e alguma coisa de outros países. E não demorou muito para que eu chegasse à conclusão de que as privatizações não trariam qualquer benefício ao grosso da população, que nada tinham a ver com o que a propaganda prometia. Explico.
De início, era aquilo: com as privatizações o Estado passaria a dispor de recursos para investir em educação, saúde, saneamento básico, moradia digna, etc, ou seja, em benefício do povo em geral. Mas, não muito tempo depois, os governos mudariam a destinação dos recursos que seriam angariados com as privatizações. Tais recursos teriam o fim de amortizar a dívida pública, dívida que só fazia se avolumar.
Então, após passado mais um tempo, o que pudemos notar? Pudemos notar que se privatizava cada vez mais enquanto que os recursos para a educação e saúde públicas, para não citar os demais itens aos quais já me referi acima, eram cada vez mais contingenciados ou mesmo reduzidos, em nome do pagamento da dívida e de, supostamente, conter a inflação. Ao mesmo tempo, imparável, a dívida pública seguia a subir, subir e a subir.
Qual a conclusão disso tudo? Aquela que já explicitei: a não ser na massiva propaganda, repetida a la Goebbels, os liberais/neoliberais não tinham pensado a privatização como forma de melhorar a vida do povo ou de desonerar o Estado.
Essa turma pensou as privatizações como meio para a abertura de novos espaços de negócios, e lucros, para os grandes grupos privados. Aí entram as PPPs e as ditas concessões. Creio que este exemplo dado pelo desgoverno Eduardo Leite na privatização de escolas é apenas mais um a ratificar essa minha conclusão.”
O Mecanismo da Ilusão: A Análise do Relato
O texto do Nelson é cirúrgico porque expõe a anatomia de um estelionato herançal. Se isolarmos os pontos que ele observou ao longo dos anos, vemos como opera a cartilha da privatização:
A tática da “isca e troca”: Primeiro, vende-se a ideia de que o dinheiro vai para o social (saúde e educação). Depois que o patrimônio foi entregue, o discurso muda: o dinheiro agora precisa ir para o “Sumidouro” da dívida pública e para agradar o mercado financeiro.
O paradoxo da dívida: Como Nelson bem notou, vendeu-se o almoço para pagar a janta, mas a fome só aumentou. Privatizou-se o patrimônio e, mesmo assim, a dívida pública continuou explodindo.
A nova fronteira do lucro: O processo não parou nos anos 90. Hoje, sob as roupagens modernas de “PPPs” (Parcerias Público-Privadas) e “concessões”, a elite econômica avança sobre os direitos mais básicos. O exemplo citado por ele — a entrega da gestão de escolas públicas à iniciativa privada no Rio Grande do Sul — mostra que até a educação dos nossos filhos virou ativo de especulação e lucro garantido para grandes grupos.
A conclusão do Nelson é a mesma de tantos brasileiros que decidiram estudar a história a fundo: a privatização nunca foi sobre eficiência; sempre foi sobre transferir riqueza do povo para o bolso de poucos.
E você, concorda com a visão do Nelson? Lembra de como era a propaganda dos anos 90 na sua região? Deixe seu comentário abaixo e participe do debate!
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