
Na noite de ontem (12/08), o Cine Bancários transformou-se em um reduto de memória, emoção e, acima de tudo, resistência política. O público que lotou o espaço para assistir à pré-estreia do aguardado filme “Honestino”, um documentário que resgata a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil barbaramente torturado e assassinado pela ditadura militar.
A Pré-Estreíano Sindicato dos Bancários, antes mesmo da chegada do filme ao circuito comercial, carrega um simbolismo profundo. Em tempos onde o passado travestido de bolsonarismo insiste em nos assombrar, flertando com o autoritarismo e tentando reescrever páginas sangrentas da nossa história, a postura dos Sindicatos de Luta é fundamental.
Ao promover espaços de debate e cultura voltados à preservação da memória, entidades como o Sindicato dos Bancários, mostram que sua função vai muito além das campanhas salariais; elas são guardiãs da democracia. Manter viva a chama da resistência contra a ditadura é uma vacina necessária para que o presente não repita os erros trágicos de ontem.
O Debate: Vozes da Memória e do Direito
Após a exibição, que deixou a sala em absoluto silêncio e consternação, o ambiente foi ocupado por um debate necessário e vigoroso sobre memória, justiça e direitos humanos. A mesa de palestrantes trouxe perspectivas complementares que enriqueceram a experiência fílmica:
Roberta Baggio: Professora de Direito Constitucional e coordenadora da Comissão da Memória e da Verdade da UFRGS. Sua fala trouxe o peso técnico e institucional da luta pela verdade. Roberta contextualizou a importância jurídica de reconhecer os crimes de Estado e o desaparecimento forçado como uma violação contínua, desmistificando tentativas revisionistas de abrandar o regime militar.
Paulo de Tarso Carneiro: Militante político que participou ativamente da resistência à ditadura. O depoimento de Paulo foi o fio condutor que ligou a narrativa do filme à realidade vivida. Com a autoridade de quem sentiu na pele a repressão, ele relembrou o clima de medo, mas também a coragem de uma geração que, como Honestino, não aceitou o silêncio. Sua presença física na mesa foi, por si só, um ato de vitória da resistência.
Mediação de Fabio Canatta: O jornalista e especialista em Direitos Humanos conduziu a conversa com sensibilidade, conectando as questões levantadas pelo filme às ameaças contemporâneas à democracia no Brasil.
Honestino, o Retrato de um Herói Ausente
Dirigido por Aurélio Michiles, “Honestino” é um Filme potente, necessário e principalmente emocionante.
O filme não é uma biografia tradicional; ele é um documentário híbrido que mescla com maestria imagens de arquivo, muitas delas raras, depoimentos emocionantes de familiares e companheiros de luta (como José Dirceu, Franklin Martins e Betty Almeida), cartas e poemas inéditos guardados pela família por décadas.
Na narração, a história é conduzida pelas perguntas de Lucas, neto de Honestino, que busca reconstruir a imagem do avô que nunca conheceu. Essa busca familiar espelha a busca do próprio Brasil por sua verdade.
Bruno Gagliasso interpreta Honestino nas encenações poéticas e reconstituições. Sua atuação não apenas mimetiza o líder estudantil, mas captura a essência da juventude, do idealismo e do medo que o cercavam.
O filme nos apresenta Honestino Guimarães: o aluno brilhante de Geologia da UnB, o presidente da UNE, o orador cativante e, por fim, o homem forçado à clandestinidade que foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, no Rio de Janeiro, e nunca mais foi visto.
A obra é premiada (Troféu Redentor de Melhor Montagem no Festival do Rio e Melhor Filme pelo Júri Popular no Fest Aruanda) e seu ritmo é rítmico, alternando o lirismo das cartas de amor e os poemas de Honestino com a brutalidade dos documentos repressivos.
Ao final, “Honestino” não é um filme sobre a morte, mas sobre a presença eterna de um ideal. Ele prova que, embora o Estado tenha conseguido desaparecer com o corpo de Honestino, falhou em apagar sua voz e seu exemplo.
Assistir a este filme no Cine Bancários foi um ato de comunhão e a certeza reafirmada: Ditadura Nunca Mais.
Pra quem não teve oportunidade de assisti-lo no Cine Bancários, hoje, 13/08, ele entra em exibição nos Cinemas do Circuito Comercial.
Clica no link pra saber onde assistir:
Descubra mais sobre Luíz Müller Blog
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
