
Antes do golpe de 1964, Manoel Raymundo Soares foi uma expressiva liderança do Movimento dos Sargentos, setor das Forças Armadas alinhado às Reformas de Base e às pautas nacionalistas defendidas por Leonel Brizola e João Goulart.
Em agosto de 1966, a descoberta de um corpo boiando no Rio Jacuí, na Ilha das Flores em Porto Alegre, chocou o país e revelou a face mais brutal do regime militar instaurado em 1964. O cadáver, encontrado com as mãos atadas nas costas e marcas extremas de tortura, era do 2º sargento do Exército Manoel Raymundo Soares — crime que ficou conhecido nacionalmente como o “Caso das Mãos Atadas”.
A trajetória e os bastidores desse episódio histórico também são analisados em artigo assinado por Raul Carrion no portal Esquina Democrática.
Do Alinhamento com Brizola à Resistência Clandestina
Antes do golpe de 1964, Manoel Raymundo Soares foi uma expressiva liderança do Movimento dos Sargentos, setor das Forças Armadas alinhado às Reformas de Base e às pautas nacionalistas defendidas por Leonel Brizola e João Goulart.
Com a tomada do poder pelos militares, o sargento foi expurgado das Forças Armadas e passou a atuar na clandestinidade. Ele se integrou ao Movimento Revolucionário 26 de Março (MR-26) — organização de resistência formada por ex-militares e militantes de orientação brizolista. Transferiu-se para Porto Alegre no início de 1965 para articular núcleos de resistência na região Sul, tornando-se alvo direto do aparato repressivo.
Sequestro, Farsa do Estado e o Funeral-Protesto
Sequestrado em maio de 1966 no Parque Farroupilha, Manoel Raymundo permaneceu três meses em centros de tortura, incluindo o DOPS e a Ilha do Presídio. Enquanto sua esposa, Elizabeth Chalupp Soares (“Betinha”), impetrava mandados de habeas corpus no Superior Tribunal Militar, autoridades policiais e militares negavam sistematicamente que ele estivesse preso.
A farsa ruiu em 24 de agosto de 1966 com a localização do corpo. O sepultamento, realizado em 2 de setembro, converteu-se em uma das primeiras grandes manifestações públicas contra a ditadura no Rio Grande do Sul:
Mobilização Popular: Centenas de estudantes da UFRGS e trabalhadores da empresa de bondes CARRIS juntaram-se ao cortejo, carregando o caixão nos ombros.
Ato na Pira da Pátria: O féretro parou coberto pela bandeira nacional ao som de cantos de liberdade e do Hino Nacional, reunindo mais de mil pessoas até o Cemitério São Miguel e Almas.
Investigações e Repercussão
A comoção levou à abertura de uma CPI na Assembleia Legislativa do RS. Apesar das fortes pressões da Secretaria de Segurança e do DOPS para atribuir a morte a “subversivos” ou desviar o foco dos agentes estatais, o trabalho do inspetor Carlos Castilhos Leites e do promotor Paulo Cláudio Tovo reuniu indícios contundentes da autoria de policiais e militares. O escândalo ganhou dimensão nacional, mobilizando juristas como Sobral Pinto.
A memória do Sargento Manoel Raymundo Soares permanece como um símbolo de resistência democrática e um alerta sobre os crimes cometidos pelo terrorismo de Estado no Brasil.
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