
por Cássio Moreira
Se você voltasse aos anos 1980 e dissesse a um militante petista que Luiz Inácio Lula da Silva se tornaria o maior líder “trabalhista” do Brasil, provavelmente seria chamado de louco.
A trajetória do Partido dos Trabalhadores carrega uma profunda ironia histórica: a legenda que nasceu para enterrar o legado de Getúlio Vargas acabou se tornando, na prática, a sua maior executora.
Não por acaso, o biógrafo e pesquisador Lira Neto foi categórico ao afirmar recentemente: “Lula, sem sombra nenhuma de dúvidas, está entre os grandes presidentes trabalhistas da história do Brasil”.
Para compreender essa metamorfose, é preciso analisar a gênese do partido, a disputa pela hegemonia da esquerda e, fundamentalmente, as imposições pragmáticas do exercício do poder.
O PT emergiu do “Novo Sindicalismo” no ABC paulista exatamente como a antítese do modelo varguista. A sua base exigia autonomia sindical, o fim do “peleguismo” e combatia a estrutura atrelada e tutelada pelo Estado. Contudo, sob uma ótica histórica e global, a essência do partido sempre convergiu para essa matriz.
Nada menos que o lendário historiador britânico Eric Hobsbawm classificou o PT original como a manifestação máxima dessa tradição, afirmando: “O Brasil tem um caso clássico de partido trabalhista nos moldes do fim do século 19 – baseado numa aliança de sindicatos, trabalhadores, pobres em geral, intelectuais e tipos diversos de esquerda – que gerou uma coalizão governista notável”.
Hobsbawm destacou o enorme sucesso dessa roupagem pragmática, lembrando que Lula encerrou seus primeiros oito anos de mandato com 80% de aprovação.
Para firmar sua identidade nas origens e reivindicar a representação exclusiva da classe trabalhadora, o PT precisou desconstruir a matriz trabalhista pré-existente. O historiador Jorge Ferreira evidencia em suas obras como o trabalhismo histórico de Vargas, Jango e Brizola foi duramente atacado — muitas vezes em aliança com a academia, sob o rótulo pejorativo e equivocado de “populismo” — em uma acirrada disputa pela hegemonia da cultura política popular no Brasil.
A intelectualidade e a militância petista das origens compraram essa narrativa, rejeitando a herança do antigo PTB para ocupar o seu espaço político.
No entanto, a força material da política nacional impôs um reencontro. Como o próprio Jorge Ferreira (2001) atesta de forma cirúrgica sobre esse arco histórico, “o trabalhismo ressurgiu em correntes diversas, exemplo do PDT e do próprio PT, com a retomada de um programa mais nacional-estatista”.
Como debati longamente em conversas pelo Skype com o saudoso mestre Moniz Bandeira — que tive a honra de ter como meu coorientador no pós-doutorado em História Política —, o trabalhismo histórico sempre visou implementar uma espécie de social-democracia no Brasil, tendo como base inegociável o nacional-desenvolvimentismo e a afirmação de um projeto nacional independente.
A retórica de oposição, inevitavelmente, esbarra nas exigências da governabilidade. O divisor de águas petista ocorre a partir de 2006. Ao precisar estruturar um projeto de nação, o “Lulismo” abandona o discurso antissistema e abraça a essência da cartilha desenvolvimentista, agora atualizada sob o conceito de social-desenvolvimentismo.
O elo teórico e prático dessa transição foi formulado com precisão pelo mestre Celso Furtado: o verdadeiro desenvolvimento socioeconômico é a junção do crescimento da renda e do emprego com uma política social ativa.
Foi exatamente essa síntese furtadiana que o PT aplicou na prática. O Estado recuperou sua capacidade de planejamento, corporificada em ações integradas como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP). Nesse processo, Lula recorreu aos exatos pilares institucionais erguidos durante a Era Vargas: a Petrobras e o BNDES.
A impressionante retomada da indústria naval brasileira é o exemplo mais bem-acabado dessa adoção prática da matriz trabalhista.
O governo petista utilizou a Petrobras não apenas como uma exploradora de óleo operando nas lógicas de mercado, mas como um poderoso instrumento estratégico de Estado, adotando uma política deliberada de compras de produtos fabricados no país para reerguer os estaleiros e fortalecer toda a cadeia da indústria petrolífera e naval. Simultaneamente, o BNDES reassumiu o seu papel de grande financiador da infraestrutura e fomentador do capital produtivo nacional.
Na prática, as grandes bandeiras petistas no poder representam a realização contemporânea dos velhos sonhos do Trabalhismo histórico:
A Reforma Urbana de Jango: O presidente João Goulart caiu em 1964 tentando aprovar as Reformas de Base. A histórica promessa de uma “reforma urbana” encontrou sua roupagem moderna e viável sob o governo do PT, materializada no programa Minha Casa, Minha Vida, que aqueceu a construção civil e garantiu moradia popular.
Educação e Ensino Técnico: Foi Getúlio Vargas quem plantou a semente da educação profissionalizante no Brasil, um caminho que Darcy Ribeiro e Brizola sempre tentaram aprofundar. Esse ideal transformou-se em política de Estado nos governos petistas por meio do Plano Nacional de Educação (PNE) e da massificação dos Institutos Federais (IFs) e do PRONATEC, unindo trabalho, ciência e qualificação profissional.
Direitos Trabalhistas e Distribuição de Renda: O PT, que antes criticava a CLT, passou a ser seu maior escudo. A estratégia de unir o crescimento econômico à valorização real do salário mínimo e à expansão do crédito popular tornou-se a ponte direta que liga o projeto petista ao reformismo de Vargas e Goulart.
É fundamental lembrar que o Trabalhismo não é uma exclusividade brasileira, mas sim um fenômeno político e sociológico global.
Existem grandes partidos trabalhistas em diversos países — a exemplo do histórico Labour Party na Inglaterra, que é o berço do movimento, e de fortes manifestações na Nova Zelândia —, sempre atuando como uma via reformista para domar o capitalismo através do Estado, mediando a relação entre capital e trabalho para gerar um vigoroso Estado de Bem-Estar Social.
Lula pode não ter lido a mesma cartilha de Getúlio e Brizola na juventude, e o PT pode ter nascido para combatê-los. Mas a história tem suas ironias.
Ao defender a indústria nacional, usar empresas estatais como locomotivas do desenvolvimento e atrelar a soberania econômica à inclusão massiva dos mais pobres, o Lulismo não só mimetizou o reformismo social-democrata, como se tornou, na prática de governo, o grande executor e herdeiro do projeto nacional trabalhista no Brasil contemporâneo.
Descubra mais sobre Luíz Müller Blog
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.