economia/trabalho

Desemprego e precariedade são frutos da revolução digital?

As políticas neoliberais têm um impacto muito negativo para os trabalhadores, causando a diminuição da renda para favorecer os lucros do capital.


Por Vicenç Navarro *

Reblogado da Carta Maior

Reprodução

Dias atrás, publiquei um artigo (“A falácia do futuro sem trabalho e da revolução digital como causa da precariedade – em Público.es, dia 12 de julho) onde indicava que os dados empíricos existentes não confirmam a teoria, bastante difundida, de que a revolução digital é um das causas (ou talvez a maior causa, segundo alguns defensores dessa ideia), do aumento do desemprego e da precariedade dos mesmos nos países capitalistas mais desenvolvidos. Essa crença que vaticina que, num futuro próximo, quase 50% dos postos de trabalho existentes hoje estarão destruídos, gerando um futuro sem trabalho.

Como era de se esperar, o artigo criou uma avalanche de comentários, alguns favoráveis, outros desfavoráveis. Algumas das críticas se baseavam numa tergiversada leitura do artigo, pois eu não neguei que a revolução digital poderia destruir o emprego. Na verdade, eu até mesmo destaquei os setores econômicos onde isso poderia ocorrer. E também indiquei que apesar da tal revolução digital poder destruir o trabalho, ela certamente também pode criar empregos. Por exemplo, por regra geral, a robótica (um dos filões dessa revolução) permite baratear os preços dos produtos, e assim se cria, no mesmo setor ou em outros, um aumento da demanda específica ou geral, contribuindo com o crescimento da atividade econômica e com a criação de empregos. Por outra parte, a aplicação da robótica requer a criação de empregos. Todas as revoluções tecnológicas anteriores, desde a introdução das linhas de montagem e das máquinas a vapor, até a introdução da eletricidade, vem sempre acompanhadas de um aumento da atividade econômica e da criação de empregos.

A evidência científica acumulada durante todos estes anos mostra que o impacto da revolução digital sobre o emprego (e sobre os salários) depende primordialmente do contexto político que configura a aplicação de tal revolução tecnológica. A robótica pode destruir empregos ou pode permitir substituir trabalho repetitivo por outro mais intelectualmente estimulante, ou pode facilitar a redução do tempo de trabalho.

Houve aumento de produtividade durante a suposta “revolução digital”?

A crítica que merece maior atenção é aquela que reconhece que, no passado as novas tecnologias, como as máquinas a vapor ou a eletricidade, não destruíram empregos, e que esta revolução – a digital – sim o fez. Quando uma nova tecnologia produz aumento da produtividade (agora, um trabalhador pode fazer o trabalho que muitos faziam antes), aumenta o risco de diminuir os postos de trabalho, gerando desemprego. Durante os anos conhecidos da revolução digital, a produtividade pouco tem aumentado, permanecendo em níveis baixos. Há quem aponte, como resposta, que se incluirmos um período maior, veremos um aumento bastante significativo da produtividade, a partir dos Anos 90. Em tal crítica, se reconhece o baixo crescimento da produtividade nos Anos 70 (1,7% de crescimento anual) e também nos Anos 80 (novamente 1,7%). Os autores da crítica acrescentam que o crescimento foi muito mais agudo nos Anos 90 (2,3%), e se manteve alto na primeira década do novo século (2,4%), atribuindo tal expansão à produtividade da revolução digital.

O problema deste argumento é que ao confrontar os balanços anuais da produtividade medidos por décadas, não estamos comparando maçãs com maçãs, e sim com rabanetes. Devemos comparar os dados do crescimento da produtividade anual por ciclos econômicos e não por décadas. O período 2000-2010, por exemplo, inclui momentos de forte crescimento da economia e da produtividade mundias no começo da década, seguido de outro período caracterizado por um crescimento econômico e um aumento da produtividade mais frágeis, que não chegavam a 1,0%. Em realidade, tanto o crescimento econômico quanto o crescimento da produtividade foram muito mais baixos depois de 2005 que durante todo o período entre 1975 e 1995. Ao analisar o crescimento da produtividade nos sectores não agrícolas dos Estados Unidos, podemos ver que tal crescimento é muito baixo. Se a revolução digital fosse tão ampla e efetiva, teríamos que estar diante de um grande crescimento da produtividade agora. Mas não o vemos.

Como explicar as diferenças entre o crescimento da produtividade e do emprego?

Outro argumento normalmente usado para defender o impacto negativo da revolução digital sobre os empregos é que enquanto os períodos anteriores de grande crescimento econômico e de grande aumento da produtividade foram acompanhados de uma grande criação de emprego, a partir do ano 2000, o crescimento econômico e da produtividade não veio acompanhado de um crescimento desse emprego. E isso se atribui, de novo, à revolução digital.

Entretanto, o aumento da produtividade não tem sido maior, pelo contrário, foi menor que em épocas anteriores. Poderia argumentar-se que isso se deve a que tal revolução digital tem sido menos extensa do que nós imaginamos, ou que o impacto desta revolução digital depende de outras variáveis, entre as quais as políticas são as mais determinantes. É necessário aqui não confundir o crescimento da produtividade num setor da economia com o crescimento da produtividade média em toda a economia de um país. Uma coisa é que se estabeleçam novas tecnologias, e outra coisa é a difusão da mesma. Por outro lado, todas as evidências demonstram que as variáveis políticas, e particularmente a relação capital-trabalho (a chamada luta de classes), são determinantes para entender a evolução do emprego.

A precariedade na Espanha

Os dados mostram claramente que a precariedade no mercado espanhol tem crescido massivamente durante os anos da grande recessão, no final da década passada. Tal fenômeno ocorre com especial intensidade no sul da Europa (e mais ainda em países como Grécia, Espanha e Portugal), onde o mundo empresarial sempre teve, historicamente, um grande poder, enquanto o mundo do trabalho sempre foi frágil, com sindicatos frágeis e partidos de esquerda divididos e em conflito). Estas são as raízes do enorme crescimento do desemprego e da grande deterioração do mercado de trabalho, assim como da queda no nível dos salários, como efeito colateral. Os países acima citados também são os que têm os mais baixos gastos públicos por habitante. A revolução digital não teve relação comprovada com nenhum desses fatos acima citados. Na verdade, a tal revolução digital está muito mais atrasada nos países do sul que nos do norte da Europa.

Em meio à recuperação econômica, a precariedade segue sendo altíssima

Abundam as discussões sobre como as políticas públicas neoliberais (as políticas de austeridade, causa dos enormes cortes do gasto público social, e as reformas trabalhistas, responsáveis pela deterioração do trabalho) têm um impacto muito negativo nas condições oferecidas aos trabalhadores, causando ademais uma diminuição da renda do trabalho para favorecer o crescimento dos lucros do capital. Entre os países mais desenvolvidos da União Europeia, a Espanha é um dos que tem uma das rendas do trabalho mais baixas: os salários chegaram a um recorde negativo, no ano de 2013, quando representaram apenas 47,2% do PIB. No começo da crise, em 2007, era quase 50% do PIB.

Ultimamente, o governo espanhol faz alarde de um país que supostamente é o que mais cria empregos entre os quinze mais desenvolvidos da União Europeia – sem esclarecer que a grande maioria desses empregos é precário, alcançando dimensões massivas desse problema entre os jovens. Isso se deve a que estas cifras ocultam que um número muito elevado de jovens vê a necessidade de imigrar para encontrar trabalho, enquanto outros abandonaram a busca por trabalho, alargando deliberadamente seus períodos de estudos.

Uma nota importante que cabe destacar é que a precariedade aparece tanto entre os trabalhadores com elevadas qualificações quanto entre os pouco qualificados. A precariedade se apresenta não só no comércio, na construção, no turismo, nos serviços domésticos e no trabalho agrícola, mas também nos setores de elevada qualificação, como médicos, engenheiros, arquitetos, advogados e professores. Os contratos curtos, temporários, com salários baixos, estão se propagando por todos esses setores, incluindo os que se consideravam protegidos. E, novamente, isso tem pouco a ver com a revolução digital, e sim com a debilidade crescente do mundo sindical ou associativo.

O ataque ao mundo do trabalho

Esta debilidade do mundo do trabalho explica também a grande perda de proteção social entre os trabalhadores. Na Espanha, entre 2010 e 2014, o gasto em medidas para contar o desemprego caiu 25%, apesar do evidente crescimento do desemprego. As pessoas que passam dois anos ou mais sem emprego representam quase 45% do total de desempregados, com mais de 1,6 milhão de lares nos quais nenhuma das pessoas que lá moram tem trabalho. Entre os que estão trabalhando, somente entre 2010 e 2013, o salário médio caiu em cerca de 600 euros. Na verdade, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o número de trabalhadores pobres (com renda abaixo do nível de pobreza) da Espanha é um dos mais altos entre os quinze países mais desenvolvidos da União Europeia. A diminuição dos salários e do emprego estão entre as maiores causas do crescimento da pobreza, que já era alta antes da grande recessão. Quase 30% da população espanhola está em situação de risco de pobreza. A renda média familiar na Espanha é de 26,7 mil euros, e a renda média individual é 10,5 mil euros – registrando queda em ambos os casos, de 11% nas rendas familiares e 7% nas individuais, entre 2009 e 2015. De novo, a revolução digital teve muito pouco a ver com esse quadro. A principal causa foi a ofensiva do mundo do capital (promotor das políticas neoliberais) contra o mundo do trabalho, que vem perdendo claramente neste conflito.

As consequências econômicas, sociais e humanas têm sido enormes. Na verdade, estas políticas de austeridade e de reformas trabalhistas regressivas vêm criando um enorme problema de falta de demanda, a principal causa do escasso crescimento da União Europeia, e também da Espanha. A queda na arrecadação é um dos resultados também percebido, como bem mostram os dados. Apesar do “enorme” aumento do número de contribuintes da Seguridade Social (que é apresentado errônea e maliciosamente como exemplo de sucesso do governo de Mariano Rajoy em termos de criação de empregos), a arrecadação deste serviço tem crescido de forma irrisória. Enquanto o gasto público dedicado à criação de empregos se reduziu pela metade durante a grande recessão do final da década passada, o gasto em seguridade pública para os desempregados (equivalente ao fundo de garantia) diminuiu em quase 25% desde 2010. Tudo isso teve um custe humano tremendo. Sabe-se que as crises econômicas têm um custe elevadíssimo para a saúde, para a qualidade de vida e o bem-estar das populações.

Na Espanha, a situação é ainda mais acentuada. A precariedade no trabalho cresceu 3,3% nos primeiros seis meses do ano, e essa cifra significa que quase dois trabalhadores morrem por más condições de trabalho no país a cada dia. A “violência” no trabalho é maior que qualquer outro tipo de violência conhecido na Espanha. E digo violência porque um grande número entre as mortes já citadas se dão em casos que são evitáveis, e que não se evitam. A resignação diante dessa violência é resultado do medo que o trabalhador tem de perder o emprego. E, de novo, isso tem pouco a ver com a revolução digital.

* Catedrático de Ciências Políticas e de Políticas Públicas da Universidade Pompeu Fabra. Ex-professor de Economia da Universidade de Barcelona. Artigo escrito para Público.es

Tradução: Victor Farinelli

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