Rio Grande do Sul

Com extinção da Cientec, pesquisa tecnológica do RS voltará à década de 30

cientec

Marco Weissheimer no SUL21

No dia 11 de dezembro de 1942, o então interventor federal do Rio Grande do Sul, Oswaldo Cordeiro de Farias, assinou em Porto Alegre o decreto de lei nº 282, criando o Instituto Tecnológico do Rio Grande do Sul (Iters). O órgão foi criado com uma missão estratégica: dotar o Estado de uma instituição capaz de realizar pesquisas tecnológicas de interesse da indústria, especialmente do setor da construção civil. Desde a década de 30, havia um debate no Estado sobre a necessidade de criação de um organismo dedicado exclusivamente à pesquisa tecnológica. Esse debate se dava em meio ao processo de industrialização pelo qual passava o país com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder. Ainda na década de 30, Vargas determinou a criação de institutos de pesquisa tecnológica em várias regiões.

O Iters desenvolveu-se ao longo das décadas seguintes e, em 1972, foi transformado na Fundação de Ciência e Tecnologia (Cientec), que ganhou maior autonomia administrativa e consolidou-se como um espaço de pesquisa e de apoio tecnológico para diversos setores da economia gaúcha. Setenta e cinco anos após a criação do Iters, o principal braço de pesquisa tecnológica do Estado está prestes a ser extinto por decisão do governo José Ivo Sartori (PMDB). A extinção da Cientec implicará, entre outras coisas, na interrupção e no fim de pesquisas tecnológicas de ponta em áreas como eletro-eletrônica, energia, navegação naval, produção de combustíveis alternativos, microbiologia e meio ambiente, entre outras.

Entre os profissionais que trabalham na fundação o clima é de incredulidade. No caso da Cientec, as justificativas do governo Sartori ao propor a extinção beiram o campo do surreal: além de interromper pesquisas estratégicas para o desenvolvimento do Estado, colocar em risco equipamentos de ponta caríssimos e desperdiçar anos de trabalho científico acumulado, a suposta economia de pessoal que o governo fará com o fechamento do órgão se limitará à demissão de sete servidores, de um total de 215 funcionários concursados e dois cargos de confiança. Todos os demais têm estabilidade e terão que ser relocados pelo governo em outras áreas, interrompendo os trabalhos de pesquisa que vinham desenvolvendo na fundação. A economia, na folha de pagamento do governo, ficará entre R$ 50 mil e R$ 60 mil. Já o prejuízo para o Estado, segundo técnicos e pesquisadores da Cientec, é inestimável e afetará diretamente diversos setores da economia gaúcha.

Campus tecnológico de Cachoeirinha pode dar lugar a presídio?

A incredulidade transforma-se em indignação quando começam a surgir sinais do que será feito do atual patrimônio da Cientec. No início do ano, autoridades da Prefeitura de Cachoeirinha e da Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe) fizeram uma visita surpresa ao campus da Cientec, localizado naquele município, para “dar uma olhada na área”. O motivo da visita seria uma possível utilização da área que hoje abriga o campus da fundação para a construção de um presídio federal no Estado. A Cientec tem um contrato de concessão com o Estado para o uso da área por 99 anos. Com a extinção da fundação, esse contrato poderia ser rompido e a área destinada para outras finalidades. Já o terreno que abriga a sede da fundação, na rua Washington Luiz, no centro de Porto Alegre, pertence à própria Cientec.

Servidor da fundação há 38 anos, o técnico especialista em automação industrial, Carlos Miguel Schantz, destaca a localização estratégica do campus da fundação em Cachoeirinha. A área de 78 hectares faz divisa com a Base Aérea de Canoas, com o Distrito Industrial de Cachoeirinha e com a futura RS 010. A Cientec solicitou o registro da área com o objetivo de concentrar todas as suas atividades no Campus de Cachoeirinha. Mas os planos do governo Sartori e do prefeito do município, Miki Breier (PSB), parecem apontar em outra direção. Schantz assinala que o resultado operacional da Cientec nos dois primeiros anos do governo Sartori foi positivo. Em 2015, foi de aproximadamente R$ 17 milhões e, em 2016, R$ 2,6 milhões, dinheiro que teria ido diretamente para o caixa único do Estado. O pesquisador lamenta a escolha do atual governo pela extinção, lembrando que, em São Paulo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) foi transformado em S.A., com participação majoritária do Estado. Carlos Schantz lembra ainda que, em outubro de 2016, durante visita ao Instituto de Microtécnica Fraunhofer, na Alemanha, o governador José Ivo Sartori anunciou que pretendia transformar a Cientec num “Fraunhofer gaúcho”. O instituto alemão é a maior organização de pesquisa aplicada da Europa, com uma equipe de mais de 24 mil pessoas atuando em mais de 80 centros de pesquisa. “Os servidores da Cientec se animaram com a notícia e foram totalmente surpreendidos, um mês depois, com o anúncio de extinção da fundação feito pelo governador Sartori”, relata.

fim da Cientec. “Na década de 80, um estudo da Fundação de Economia e Estatística (FEE) apontou uma deficiência do Estado na área eletroeletrônica. O governo Pedro Simon se convenceu da importância em suprir essa deficiência e decidiu investir nesta área. A Cientec teve um papel decisivo nestes investimentos e hoje o Rio Grande do Sul é o segundo polo eletroeletrônico do país”. Outra intervenção importante da instituição, acrescenta, foi a viabilização técnica do projeto que resolveu um problema de passivo ambiental representado pela casca de arroz na região de Alegrete, que passou a ser fonte de geração de energia.

“Não tem cabimento acabar com esse serviço”

Coordenador do laboratório de eletroeletrônica no campus de Cachoeirinha, Flavio Tarragô destaca que a Cientec foi a primeira instituição acreditada pelo Inmetro no Brasil para a realização de testes de compatibilidade eletromagnética, necessários para garantir que um dispositivo, equipamento ou sistema funcione sem degradação e ao mesmo tempo não seja fonte de interferência. Os serviços oferecidos por esse laboratório são fundamentais para muitas empresas instaladas no Rio Grande do Sul e também em outros estados. Igor Gomes da Silva, técnico em eletrônica da Novus Produtos Eletrônicos Ltda., empresa sediada em São Leopoldo que produz equipamentos para automação industrial, destaca o papel estratégico que a Cientec representa para a empresa:

“Nós exportamos para mais de 70 países. Sem o certificado de compatibilidade que o laboratório da Cientec fornece, não conseguimos exportar. E se não conseguirmos exportar, não vamos sobreviver no mercado. Sem o laboratório da Cientec, teríamos que ir para São Paulo, Minas ou outros estados para realizar esses testes de compatibilidades, o que elevaria muito os nossos custos. Esse serviço é essencial. Não tem cabimento acabar com ele. Estamos atônitos”.

Ex-presidente da Cientec, Luiz Antonio Antoniazzi, recorda que na década de 80, quando o laboratório da Cientec ainda não existia, só o Instituto Nacional de pesquisas Espaciais (INPE) realizava esses testes de compatibilidade eletromagnética. “A Cientec investiu US$ 1,5 milhão para construir esse laboratório que foi o primeiro do país a ser acreditado pelo Inmetro. Hoje, é o melhor equipado do sul do país. A partir daí a indústria eletroeletrônica passou a crescer e hoje constitui o segundo maior polo do país nesta área. Em 2015, esse setor atingiu um faturamento de R$ 7,5 bilhões”, assinala Antoniazzi.

Os laboratórios da Cientec, acrescenta, realizam dois tipos de serviço: homologação de equipamentos e desenvolvimento de produtos. Ainda no setor eletroeletrônico, ele destaca a importância da câmara semi-anecóica, um recinto blindado elétrica e magneticamente, sem quaisquer perturbações eletromagnéticas, que permite realizar testes de emissão e imunidade para qualquer aparelho ou sistema elétrico-eletrônico. A câmara da Cientec foi importada dos Estados Unidos por aproximadamente US$ 2 milhões. Antoniazzi manifesta preocupação com o destino de todos esses equipamentos. “O governo não pediu qualquer informação sobre as atividades realizadas pela Cientec ou sobre o patrimônio da fundação. Há muitos projetos em andamento que envolvem equipamentos sofisticados e caros”.

Um exemplo disso é o projeto que envolve a criação de um sistema integrado de navegação dotado de tecnologia digital, comparável aos mais modernos do mundo, que envolve investimentos de mais de R$ 15 milhões. Realizado em parceria com as empresas Technomaster e Dtecto, ambas de São Leopoldo, o Sisnavega busca desenvolver, construir e testar um sistema de controle e operação para embarcações e navios, assegurando o monitoramento eletrônico das condições de navegação e da própria embarcação.

Outra área de pesquisa na Cientec trabalha com o desenvolvimento do biodiesel. Luis Antonio Mazzini, coordenador do Laboratório de Desenvolvimento Analítico, lembra que, um pouco antes de 2005, a Cientec foi indicada para liderar uma pesquisa com biodiesel, bioquerosene e biolubrificantes, com o objetivo de substituir derivados de petróleo por combustíveis de fontes renováveis. No caso do Rio Grande do Sul, essa pesquisa tem uma importância especial uma vez que o Estado é responsável hoje por 30% da produção de biodiesel do país.

Pesquisas com gaseificação de carvão

Ainda no setor energético, a fundação é responsável hoje por pesquisas envolvendo o processo de gaseificação do carvão em leito fluidizado. Com a inauguração do Campus de Cachoeirinha, foi possível ampliar a escala das pesquisas através da montagem dos projetos Civogás, Cicom e Cigás, desenvolvidos pelo Departamento de Engenharia de Processos da fundação. Guilherme de Souza e Guilherme P. S. Priebe, que trabalham neste departamento, consideram fundamental o trabalho desenvolvido pela Cientec para o estudo do carvão gaúcho e o desenvolvimento de tecnologias adequadas para a sua exploração.

“A Cientec participa de todos os processos envolvendo tecnologias de queima de carvão. O nosso carvão tem características peculiares, como a presença de altos teores de cinzas e enxofre, que, sem uma tecnologia adequada, podem causar uma série de problemas. Durante muitos anos, Candiota sofreu com esse tipo de problema. Isso é um exemplo do que pode acontecer se o Estado não tiver técnicos e pesquisas qualificadas. A importância da Cientec nesta área é gerar conhecimento sobre esses processos e as tecnologias mais adequadas. Se não tivermos pesquisa sobre esses temas, nunca teremos uma exploração sustentável do carvão aqui no Estado”, diz o engenheiro químico Guilherme Priebe.

Além dessas pesquisas, a Cientec também desenvolveu tecnologia para o aproveitamento das cinzas do carvão na fabricação de cimento, cerâmicas, blocos e pavimentação de estradas, entre outros produtos. Atualmente, a cinza do carvão já é usada amplamente pela indústria do cimento. “Hoje, não se compra um saco de cimento aqui no Estado sem a presença de cinzas de carvão. Isso foi feito com o trabalho da Cientec”, destaca ainda Priebe.

O governo Sartori ainda não deu qualquer indicação ou informação aos pesquisadores da Cientec sobre qual será o destino de todas essas pesquisas, equipamentos e patrimônio em termos de conhecimento e tecnologia. Com a extinção da fundação, a pesquisa tecnológica do Rio Grande do Sul, voltada para o desenvolvimento de sua economia, retrocederá ao estágio que tinha na década de 30, quando se debatia a importância estratégica de o Estado ter esse tipo de instituição para fomentar seu desenvolvimento econômico e científico.

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