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SANDÁLIAS DA HUMILDADE E DA LUTA (Por Selvino Heck)

edegarÀ Dona Marisa Letícia e Lula

“Eu vim para servir e não para ser servido”, disse Jesus à mulher de Zebedeu, quando ela lhe apresentou os filhos Tiago e João, pedindo a Jesus que cada um se sentasse em cada lado seu em seu reino. “Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva. E quem quiser ser o primeiro entre vós, será esse o vosso servo.”  Foi a forma de Jesus dizer que poder é serviço.

Foi o gesto de Edegar Pretto, quando chegou no meio do povo na Praça da Matriz, recém eleito presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul: tirar o paletó, a gravata, tirar os sapatos, para que o ex-governador Olívio Dutra lhe calçasse, como anunciou Eliane de Moura Martins, do MTD (Movimento dos Trabalhadores Desempregados), ‘as sandálias da luta’. E, acrescento eu, calçando também ‘as sandálias da humildade’.

Não foi apenas um gesto simbólico. No seu pronunciamento, já como presidente do Poder Legislativo, Edegar Pretto, filho do lutador social, militante do MST e da agricultura familiar, e ex-deputado Adão Pretto, falecido em 2009, disse: “Assumo compromisso com algumas causas que devem fazer dos grandes debates desta Casa: a democracia e a participação popular, o papel do Estado, a eqüidade de gênero, a agricultura e soberania alimentar.”

Fui deputado estadual constituinte gaúcho com Adão Pretto, que conheci na primeira metade dos anos 1980, como sindicalista em Miraguaí, Norte gaúcho, participante das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e da CPT (Comissão Pastoral da Terra). Agora, seu filho Edegar, 30 anos depois, assume a Presidência da Assembleia, para fazer cumprir e valer aquela que é considerada uma das Constituições mais progressistas do país na garantia de direitos, na participação social, na democratização do Estado e da sociedade, fruto de muita luta e mobilização social.

O lema de Adão Pretto era ‘um pé na luta, outro no Parlamento’, como agora de novo compromete-se Edegar, já eleito presidente. Ou seja, nunca tirar o pé da luta e a favor das mobilizações por direitos e democracia, ainda que o outro pé esteja no Parlamento ou em algum espaço de poder. Nunca deixar de ser movimento, mesmo quando se é ou se está na instituição. Mesmo sendo presidente de um Poder.

Estamos em tempos em que militantes sociais, lutadoras e lutadores do povo, especialmente aqueles que estão em governos, Parlamentos ou espaços de poder, mais que nunca precisam vestir as sandálias da humildade, da luta e do serviço. Lembrar de onde se veio, lembrar dos ideais que se defende, lembrar do compromisso de vida com os pobres, os lascados, os oprimidos, não afastar-se dos valores da justiça, da solidariedade, da igualdade, reavivar a cada dia e em todos nos lugares o sonho da mudança, da transformação, da liberdade, da democracia, do bem comum, hoje traduzidos no BEM VIVER indígena latino-americano.

Na manifestação e celebração de alegria e apoio ao novo presidente da Assembleia na Praça da Matriz, cantavam os Cantadores do Povo: “Capitalismo nunca foi de quem trabalha. Nossos direitos, só a luta faz valer.”

Poder é serviço, com humildade e luta.

  1. É preciso ser amigo dos amigos, companheiro dos companheiros. Sempre. Foi como conheci e convivi com Dona Marisa Letícia ao longo de décadas. Ela nunca transigiu. A bandeira do PT costurada por ela à mão permaneceu na sua mão, na sua alma, no seu coração a vida inteira. Tenho comigo, guardado, Boletim da Pastoral Operária de 1980. Na foto de capa, a Marcha das mulheres de Primeiro de Maio de 1980, Marisa na linha de frente, ladeada pelas mulheres, por D. Cláudio Hummes, Frei Betto, exigindo a libertação de Lula e companheiros, presos na greve dos metalúrgicos e com intervenção no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, ações e repressão da ditadura militar. Guerreira, corajosa, companheira, Dona Marisa Letícia Lula da Silva calçou as sandálias da humildade e da luta. A vida inteira.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em três de fevereiro de dois mil e dezessete

2 pensamentos sobre “SANDÁLIAS DA HUMILDADE E DA LUTA (Por Selvino Heck)

  1. Arrepiada… lindas palavras, lindos fatos; a resistência à ditadura começou em POA, na Assembléia Legislativa (André Foster e o IEPES em 1972), lembram? “Os ideais não morrem jamais” À luta!
    “Mostremos valor constância
    Nesta ímpia e injusta guerra
    Sirvam nossas façanhas
    De modelo a toda Terra”

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