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ALARME GERAL – Onde vamos parar? (Por Selvino Heck)

Arma

Se não estamos no fundo do poço, estamos perto. E não falo, em primeiro lugar, da crise política, da qual não se enxerga saída no horizonte (Recomendo ler a entrevista de Juarez Guimarães, “Nada mais desmobilizador hoje que 2018”, feita por Marco Weissheimer para o Sul21 – www.sul21.com.br). Falo de coisas tão ou mais graves, que vão além da crise política.

Alguns fatos recentes do cotidiano.

Fato um:  Último domingo, antes do frio intenso da semana, saio de casa pelas oito da manhã. Quase na porta de casa, uma rua tranquila próxima do Colégio Rosário e da Santa Casa, Bairro Bom Fim, Porto Alegre, uma pessoa dormindo na beira da calçada, enrolada em cobertores. Fazia tempo que não encontrava alguém nestas condições na minha rua. Caminho até o Centro da capital – Mercado Público, Prefeitura -, 10 ou 15 minutos a pé, e encontro outras dez ou quinze pessoas nas mesmas condições num domingo de manhã.

Fato dois: saio de uma loja de telefonia no centro de Porto Alegre, encontro o Roberto, guarda que cuida da segurança da minha rua há mais de quinze anos, uma iniciativa dos vizinhos, bem antes da crise atual. Pergunto: “O que está fazendo aqui?” Ele: “Vim resolver o problema do meu celular. Saí ontem às seis da manhã da tua rua, e na Rua da Praia (principal e mais conhecida rua de Porto Alegre), duas pessoas encostaram em mim por trás e me levaram o celular e tudo mais que eu tinha.”

Fato três: Saio da sede municipal do PT, na Cidade Baixa de Porto Alegre, início da noite, vigília no dia da decretação da prisão do ex-presidente Lula. No meio da caminhada até meu apartamento, encontro uma companheira que esteve no mesmo ato. Mora a uns duzentos metros da minha casa, em torno dos prédios da Universidade Federal, centro de Porto Alegre. Pede que a acompanhe: “Não tenho coragem de andar sozinha. De noite, não saio mais de casa, a não ser acompanhada.” Ela mora ao lado do lendário restaurante Marius, um dos pontos de encontro da estudantada nos anos 1970, em tempos de movimento estudantil intenso. E ninguém, então, tinha medo, em plena ditadura. Eu, inclusive, morava longe, no bairro popular da Lomba do Pinheiro, para onde ia de ônibus tarde da noite.

Fato quatro: Encontro o ex-vereador Sérgio Kumpfer, de Viamão, em ato contra o golpe na Esquina Democrática, companheiro de luta comunitária quando eu morava na Lomba do Pinheiro, anos 1980. Conversamos sobre a vida, a política, a militância. Diz: “Não saio mais à noite na vila Santa Isabel, Vila Augusta e arredores. Não dá mais. Grupos armados tomaram conta, não tem mais segurança e eu tenho coragem de visitar alguém de noite.”

Leio que o número de população em situação de rua aumentou 75% em Porto Alegre nos últimos anos e, numa reunião do Movimento da População de Rua no CAMP (Centro de Assessoria Multiprofissional), me informam que vários morreram de frio na Região Metropolitana nos últimos dias. Leio que há mais de 14 milhões de desempregados, dois milhões dos quais estão sem emprego há mais de dois anos. Vou na Conversa Aberta promovida pela Pastoral Carcerária sobre a Agenda Nacional pelo Desencarceramento no Rio Grande do Sul esta semana. O Brasil é o terceiro país do mundo em número de presos, e que aumentaram entre 6 e 7 mil nos últimos três anos no Rio Grande do Sul, a maioria sem julgamento final (não tem dinheiro para pagar advogado), presos provisórios, pretos e pobres.

Leio uma análise de Márcio Pochmann: “Da Belíndia ao Bahaiti – Mais pobreza, violência e barbárie no Brasil do golpe.” E uma análise de Aldo Fornazieri: “A convulsão social já está ocorrendo”. Mais uma entrevista de Rosana Magalhães, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, ao Boletim do IHU (Instituto Humanitas): “Renda per capita inferior a 1,25 dólar por dia. Aumenta a fome e a insegurança alimentar no Brasil.” Diz Rosana:  “Apesar de o Brasil ter saído do Mapa da Fome há três anos, entidades da sociedade civil alertam para a possibilidade de a fome e a insegurança alimentar aumentarem no país. O Banco Mundial tem projetado um aumento da pobreza extrema no país e se estima que até 10% da população terá uma renda per capita inferior a 1,25 dólar por dia neste ano. O Brasil continua um país extremamente desigual.”

Todos os acontecimentos relatados, as conversas, atos e reuniões, assim como os artigos, textos e análises, aconteceram e/ou são das duas últimas semanas.

Qual a saída? Onde vamos parar? Há luz no fim do túnel?

Não podemos nos iludir. Como veem, e leem, eventuais leitoras e leitores meus, eu, um eterno otimista, estou pessimista, cético com o futuro.  A crise bate à porta das pessoas e famílias por diversas formas, a crise está no cotidiano. Está muito além de Brasília, da corrupção e das ameaças à democracia. Embora, ela, a crise, aconteça também por causa da corrupção deslavada, da insensibilidade absoluta da elite brasileira e de seu histórico desprezo pela democracia.  Portanto, a histórica e eterna ausência de políticas públicas, ausência de Reformas estruturais, ausência de participação e protagonismo popular.  Os valores mais básicos, de solidariedade, de respeito ao ser humano e às diferenças, de convivência social, estão sendo corroídos e enterrados na vala comum do golpe, da canalhice e da entrega do país ao grande capital. Tudo abençoado pela grande mídia golpista e antidemocrática. Podemos estar, como diz Juarez Guimarães, à beira de uma crise civilizacional.

Segundo a Pastoral Carcerária, nas palavras de Jesus, “eu estive preso e vim te visitar”, o eixo condutor é o fim do encarceramento em massa: “Se a gente não mudar o sistema, a gente não derruba as grades.” Isso exige alterações legislativas, desmilitarização das polícias, políticas sociais, entre outras muitas coisas.   

No artigo, “São Tempos de Mudança. É preciso Organização e Convergência popular”, João Pedro Stédile escreve: “Para as forças populares, o principal é entender que, se há crise, há um sinal de tempos de mudança. E temos que aprofundar nossa organização e aumentar a luta de massas. Somente ela pode desequilibrar a correlação de forças em cada um de nossos países e, portanto, ao nível continental.”

Há um abismo entre hoje e 2018, diz Juarez Guimarães, que é preciso atravessar.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul

Em vinte e um de julho de dois e dezessete

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