Revolução

A atualidade de Che Guevara (Por Eduardo Mancuso)

che
As sempre justas e merecidas homenagens ao Che costumam destacar o exemplo
ético-político, o aspecto insubmisso e heroico de sua figura histórica, sem perceber ou
reconhecer a vigência do seu pensamento político. Porém, quando nos debruçamos
sobre suas ideias políticas, descobrimos que muitas das derrotas do socialismo no
século XX e dos impasses da esquerda nas últimas décadas, encontram respostas
inspiradoras no legado do Che. Para o “guerrilheiro heroico”, estratégias e táticas de
guerrilha eram adequadas em países e regiões submetidas a regimes ditatoriais e sem
espaço para a luta democrática, e tiveram o seu tempo. Porém, a “filosofia da práxis”
do Che continua absolutamente atual, tão vívida como a permanência icônica e
universal de sua imagem em pleno século XXI.
Se considerarmos que o socialismo continua sendo pré-condição para que a
humanidade possa constituir uma nova civilização, alternativa a barbárie capitalista
moderna, não podemos esquecer das palavras do Che: Para construir o comunismo
simultaneamente com a base material há que construir o homem novo. A construção
da alternativa civilizatória ao capitalismo exige não apenas uma radical revolução
política e econômica, mas uma grande revolução cultural.
A práxis revolucionária guevarista buscou sempre recuperar a essência subversiva
dos clássicos do marxismo. O maior marxista latino-americano da primeira metade do
século XX, o peruano José Carlos Mariátegui, escrevia em 1928: Contra uma América
do Norte capitalista, plutocrática, imperialista, só é possível opor de maneira eficaz
uma América, latina ou ibérica, socialista.
Quatro décadas mais tarde, Che Guevara retoma a bandeira anti-imperialista,
concluindo sua famosa “Mensagem a Tricontinental” afirmando: “ou revolução
socialista ou caricatura de revolução”. Mas qual socialismo o Che defendia? Cada vez
mais crítico em relação às experiências socialistas “reais”, soviética e chinesa,
Guevara busca um novo caminho para Cuba e para a América Latina. Para enfrentar
esse desafio ele também coincidia com as ideias de Mariátegui, que havia declarado:
Não queremos, certamente, que o socialismo seja nas Américas calco e cópia. Deve
ser criação heroica. Temos que dar vida, com nossa própria realidade, com nossa
própria linguagem, ao socialismo indo-americano.
Boa parte da reflexão do Che e de sua prática política nos anos 60 tinha como meta
superar o impasse que a caricatura socialista burocrática do modelo soviético impunha
aos povos sob a sua influência em meio a lógica da guerra fria. Segundo Michael
Lowy, autor de um belo livro sobre o Che, ainda no final dos anos 1960, e um de seus
principais intérpretes ao longo das últimas décadas:
o motor essencial desta busca de um novo caminho – mais além de questões
econômicas específicas – é a convicção de que o socialismo não tem sentido – e não
pode triunfar – se não representa um projeto de civilização, uma ética social, um
modelo de sociedade totalmente antagônico aos valores do individualismo mesquinho,

do egoísmo feroz, da competição, da guerra de todos contra todos da civilização
capitalista.
O Che tinha perfeitamente claro que a construção do socialismo é inseparável de
valores éticos. Em uma entrevista em julho de 1963, ele insistia:
o socialismo econômico sem a moral comunista não me interessa. Lutamos contra a
miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação. (…) Se o comunismo passa por
cima dos fatos de consciência, pode ser um modo de distribuição, mas não será mais
uma moral revolucionária.
O Che entendia que se o socialismo tentasse competir com o capitalismo no terreno
do adversário, do produtivismo, utilizando suas próprias armas – o mercado e a
concorrência – estava condenado ao fracasso e ao risco de sofrer uma regressão ao
próprio capitalismo (o que de fato ocorreu). O socialismo para o Che era o projeto
histórico de uma nova sociedade, baseada em valores de igualdade, solidariedade,
livre discussão e ampla participação popular. Tanto as suas críticas ao modelo
soviético quanto sua prática de dirigente político e sua reflexão teórica sobre a
experiência cubana são inspirados por esta utopia humanista e democrática.
Em seus escritos econômicos a questão da planificação socialista ocupa um lugar
central, e nos seus últimos anos a concepção de democracia socialista na
planificação começa a aparecer como essencial. Quando critica o Manual de
Economia Política da Academia de Ciências da URSS, determinista e dogmático, Che
Guevara avança um princípio democrático fundamental: em uma verdadeira
planificação socialista é o próprio povo, os trabalhadores, as massas que devem tomar
as grandes decisões econômicas.
Contra a monopolização das decisões por tecnocratas ou burocratas “comunistas”, o
Che insistia na necessidade de uma verdadeira participação popular: os grandes
problemas sociais e econômicos de uma sociedade são políticos e devem ser objeto
de debate e decisão democrática pela maioria. A reflexão de Guevara sobre o
socialismo não se limita a Cuba ou América Latina: ela é universal e profundamente
internacionalista. Para o Che o verdadeiro socialista é aquele que considera os
grandes problemas da humanidade como problemas seus.
Em uma bela síntese apresentada por Michael Lowy no Fórum Social Mundial de
Porto Alegre, encontramos o “espírito” internacionalista do pensamento guevarista:
O internacionalismo para Guevara – ao mesmo tempo modo de vida, fé profana,
imperativo categórico e pátria espiritual – era inseparável da ideia mesmo de
socialismo, enquanto humanismo revolucionário, enquanto emancipação dos
explorados e oprimidos do mundo inteiro, numa luta sem tréguas nem fronteiras com o
imperialismo e a ditadura do capital.
Ao fim e ao cabo, como disse o velho Marx, o mais importante é a luta. E como
lembravam, tanto o “realista” Lenin, como o “messiânico” Walter Benjamin: o
capitalismo não vai morrer de morte natural. Che Guevara lutou com todas as suas
forças e até o fim de sua vida sob a mesma consigna de Rosa Luxemburgo:
socialismo ou barbárie.

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