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MAPA DA FOME E CONSCIÊNCIA ALIMENTAR (Por Selvino Heck)

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A 15ª Semana da Alimentação, de 16 a 22 de outubro, remete a pelo menos duas
preocupações: O Brasil está voltando ao Mapa da Fome? Estamos caminhando para uma maior
consciência alimentar?
Três anos após o Brasil sair do Mapa da Fome das Nações Unidas, a insegurança alimentar
volta a ameaçar as famílias mais pobres. Em 2017, os dados são preocupantes. O alerta foi dado
num relatório de mais de 20 organizações da sociedade civil que monitora o cumprimento dos 17
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a chamada Agenda 2030.
Diz a ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello: “A
chance de o Brasil voltar ao Mapa da Fome é enorme. Com a PEC/241, que prevê o congelamento
dos gastos públicos por 20 anos, o país pode chegar a 2036 com metade dos recursos para a
assistência social que tinha nos anos 1990. A PEC 241 é o enterro do que a Constituição
estabeleceu como perspectiva para a política social no Brasil. É um retrocesso muito grande,
considerando o que avançamos no período.” De acordo com o IPEA (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada), ao final de 2036 os gastos na área social encolherão para 0,7% do PIB. Em
2015, eles representavam 1,26%.
O risco de volta ao Mapa existe também por causa do fim da valorização do salário
mínimo, do aumento do desemprego, ameaça de cortes nas aposentadorias rurais, fim ou redução
de programas de apoio à agricultura familiar, flexibilização das leis trabalhistas, congelamento dos
gastos públicos por 20 anos. E quem fica, segundo Tereza Campello, de fato mais vulnerável é a
população mais pobre, as crianças em situação de violência, as mulheres, a população de rua.
No mundo, segundo o relatório Estado da Segurança Alimentar e Nutricional da FAO,
órgão das Nações Unidas, 815 milhões passam fome. E depois de uma década, voltou a aumentar
a fome na América Latina e Caribe em 2,4 milhões de pessoas, alcançando um total de 42,5
milhões.
O tema da Semana da Alimentação é RUMO À CONSCIÊNCIA ALIMENTAR: Segurança
alimentar e nutricional, Direito Humano à Alimentação adequada e saudável, Soberania Alimentar.
Haverá atividades em todo Rio Grande do Sul, promovidas pelo CONSEA/RS e Conselhos
municipais (Informações: http://www.emater.tche.br/site/semana-alimentacao), Feiras Agroecológicas,
Praça da Segurança Alimentar dia 22 de outubro no Parque da Redenção em Porto Alegre.
Que consciência alimentar estamos criando, especialmente para crianças e adolescentes?
Diz Isabella Henriques, do Instituto Alana: “O mercado procura formar crianças como
consumidores eternamente desejantes e insatisfeitos.” E Francisco Milanez, presidente da
AGAPAN: “Estamos sofrendo e morrendo por causa da alimentação. É um modelo perverso.” Não
por acaso, ao mesmo tempo que cresce a fome, cresce o índice de obesidade em geral, e em
especial a obesidade infantil.
A possibilidade da volta ao Mapa da Fome e a consciência alimentar não se excluem.
Quem tem fome come o que tem, o que acha, o que lhe é oferecido, ou o que sobra na mesa de
alguém e é jogado fora. Ou não come e passa fome. Quem não tem fome, se não for educado e

não tiver consciência alimentar, come tudo que vem pela frente, estimulado pela publicidade e
pelos valores dominantes na sociedade. Ambos, a fome e a falta de consciência alimentar fazem
parte de uma sociedade onde há um consumismo sem limites e grande desperdício de alimentos,
onde a desigualdade econômica e social cresce assustadoramente, inclusive de novo no Brasil e,
portanto, a fome é tolerada, ou produzida, ou não combatida pelas políticas governamentais, e a
obesidade é fruto de valores como o individualismo, a não consciência social, a concentração de
renda.
‘Matar a fome de pão e saciar a sede de beleza’, dizia Frei Betto para a equipe de
educadores/as populares do TALHER, que, com o MESA, COPOS, PRATOS e SAL, atuavam no Fome
Zero nos idos de 2003. Era um esforço para conscientizar: acabar com a fome, sim, em primeiro
lugar, garantir segurança alimentar e nutricional. Mas também e ao mesmo tempo, e tão
importante quanto, nutrir de direitos e cidadania, estimular a participação social, lutar por justiça
social, igualdade, democracia.
O compromisso continua: acabar com a fome e não deixar seu retorno, nenhum direito a
menos, comer só o que é adequado e saudável. A Semana da Alimentação, com a participação de
escolas, igrejas, movimentos sociais, afirma e reassume esse compromisso, com o apoio da
sociedade e de quem acredita num Brasil solidário, justo e democrático. Não há tempo a perder.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Membro do FESANS/RS
Em vinte de outubro de 2017

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