política

O PODER SE ESPALHA (Por Selvino Heck)

PoderA camiseta fez sucesso, com toda razão. Gamei, quando a vi. Recebi-a
no Encontro Macro Regional Nordeste da Rede de Educação Cidadã, RECID,
acontecido no Centro de Formação Paulo Freire em Caruaru, PE, 12 a 14 de
outubro, com apoio da Casa Pequeno Davi e Comunidade Europeia. Usei-a
duas vezes. Primeiro, em Cruz Alta, RS, sábado, dia 21, na última etapa da
Escola Cristã de Educação Política (ECEP), das dioceses de Cruz Alta e Santo
Ângelo, com o tema geral ‘Novas Concepções e Caminhos na Organização da
Sociedade a partir do ECEP/2017’. Depois, domingo, 22, na Casa da Partilha,
Gravataí, Encontro dos grupos de CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) da
Arquidiocese de Porto Alegre.
Está escrito na parte da frente da já famosa camiseta: c. E nas costas: A NOSSA COMUNIDADE
TEM A NOSSSA VOZ.
A pergunta de início dos trabalhos nos dois Encontros foi: Onde está a
esperança/utopia na realidade e vida de vocês neste momento da história
mundial, latino-americana e brasileira? Em outras palavras, ainda há
esperança? Onde ela está? Como torna-se visível, palpável, na escola, na
comunidade nos movimentos sociais, na política, na diocese, na família. na
sociedade, na paróquia, no município, no Estado, no país?
Nestes tempos de crise, tempos sombrios, mesmo sabendo que crises
oferecem riscos, e podem levar ao caos ou à barbárie, como no caso atual, é
preciso estar atento e ver as oportunidades, descobrir onde há esperança
florescendo.
Em Tacaimbó, Pernambuco, e em outras cidades e Estados do
Nordeste, como no Estado do Maranhão, o analfabetismo está sendo
enfrentando usando o método cubano de alfabetização ‘Eu posso’. Declarar
Tacaimbó município livre do analfabetismo era a palavra de ordem no
auditório lotado da escola onde aconteceu seu lançamento. Nas palavras de
Jaime Amorim, dirigente nacional do MST, Movimento que vai aplicar o ‘Eu
posso’: “É preciso que todos sejam guerrilheiros da educação.” O prefeito da
Tacaimbó, Álvaro Marques, disse: “Cada governo tem que deixar uma marca.

Cada um tem que dizer o que fazer nesta vida. O político é também um
educador popular.” E Rubineusa, educadora do MST: “Sempre é tempo de
aprender, sempre é tempo de ensinar. O mestre é aquele que nunca perde a
capacidade de aprender.”
O Encontro Macro Nordeste da Rede de Educação Cidadã deu
expressão e voz à frase, ‘da força do povo, brota um Nordeste novo’.
Dezenas de educadoras e educadores populares refletiram, à luz da educação
popular-crítico- freireana, os caminhos da organização e conscientização
popular. E dizem na Carta final do Encontro: “Querem tirar de Paulo Freire o
título de Patrono da Educação Brasileira. A luta, não por causa do título, mas
por causa do simbolismo que representa e da justa homenagem para quem é
o brasileiro mais lido, conhecido e traduzido no mundo, é por mantê-lo. O
que é mais importa, no entanto, é o fato dos pobres o e oprimidos do
mundo, especialmente os da América Latina, da África e Brasil, terem
aprendido a ler e escrever, em primeiro lugar, e continuarem aprendendo.
Mais que escrever as letras, as sílabas e a palavra ‘tijolo’, aprenderam que o
tijolo quando se junta a outro tijolo, ‘espalha poder’, e assim a comunidade
tem voz, é capaz de construir, coletiva e solidariamente, sua consciência de
mundo e sua libertação. Por isso, o pernambucano, nordestino e brasileiro
Paulo Freire está vivo nos corações, nas mentes, nas consciências, dentro e
fora das escolas, no agreste, no sertão, no Pampa, na Amazônia, no Cerrado,
no Semiárido, no Pantanal, no campo e na cidade, nas místicas das/os
educadoras/es populares, das/os lutadoras/es, que a cada dia forjam sua
história e a transformam em História.”
Em Salvador, Bahia, o lançamento e o Seminário Internacional do
Fórum Social Mundial, dias 17 e 18 de outubro, foi uma celebração,
misturado aos milhares de estudantes que participaram do Congresso da
UFBA. Debates de todos os tipos e temas, música, festa, alegria, entusiasmo
deixaram antever que o FSM/2018, a realizar-se de 13 a 17 de março, será
oportunidade, não risco, muito menos caos ou barbárie. Será um
acontecimento, dizendo e proclamando que ‘um outro mundo é possível’,
urgente e necessário.
As frases são simples e retratam o que militantes, lutadoras/es,
educadoras/es populares fizeram/fazem e sonharam/sonham a vida inteira.

‘Quando o povo se junta, o poder se espalha. A nossa comunidade, a minha,
a tua, tem a minha, a tua, a nossa voz.’ Não a voz dos outros, não a voz de
cima, não a voz do chicote, do mando, da ditadura, do golpe, da traição. A
voz da solidariedade, da justiça, da igualdade, do fazer junto, do ser
irmãs/irmãos, companheiras/companheiros. Diz a Carta da RECID, no último
parágrafo: “Sentimo-nos engravidados de sonhos, de esperança freireana.
Temos clareza que a mudança não será fácil, mas que é possível. Estamos
convictos da necessidade de continuarmos a luta. Esta luta nos convoca, a
cada nascer do sol, a nos fazermos presentes pelo anúncio desse mundo
sonhado e possível. Estamos atentos e fortes na perspectiva da construção
do Poder Popular, ousando sonhá-lo, mesmo sabendo que, na verdade, a
transformação do mundo a que sonhamos e aspiramos é um ato político e
seria ingenuidade não reconhecer que os sonhos têm seus contra-sonhos’.
Quando, porém, o povo se junta, o poder se espalha, sai das torres,
corruptos são desinstalados, ditadores são varridos do mapa, o poder torna-
se popular, é do povo. E a comunidade será a minha, a tua, a nossa voz.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Em vinte e sete de outubro de dois mil e dezessete

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