política

OS VIVOS E OS MORTOS (Por Selvino Heck)

Sabia

Ninho de Sabiás

Estou em casa de mamãe a semana inteira, em Santa Emília, Venâncio Aires, interior do
interior do Rio Grande do Sul, recuperando-me de um quase stress, cansaço total, dois meses pra cima e pra baixo, Brasil afora sem parar: Movimento Fé e Política, CAMP (Centro de Assessoria Multiprofissional), FSM (Fórum Social Mundial), CEAAL (Conselho de Educação Popular da América Latina e Caribe), RECID (Rede de Educação Cidadã), pastorais, CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), Igreja em Saída, assessorias de todos os tipos e para todos os lados: análise de conjuntura, reflexões, Encontros, formação, etc., etc., etc. O que não deixa de ser muito bom: sinal de que muita coisa positiva anda acontecendo em diferentes latitudes.
É segunda de manhã, o sol volta a aparecer, depois de vários dias nublados e com chuva. Depois de tomar seu chimarrão matinal, mamãe, que vai fazer noventa e um este mês de novembro, olha para fora, pelos janelões à direita e à esquerda da cozinha, e fala poeticamente, em alemão, depois de saudar a alegria do neto Gabriel que assobia o hino do Grêmio em semana de Semifinal da Copa Libertadores: “Ist alles vol Bäume und ist alles schön grün. Die Vögel sind alle froh. Sie singen Morgen früh – Está tudo cheio de árvores e tudo tão verde! Os pássaros estão todos alegres. Estão cantando de manhã cedo.”
A última semana de outubro e a primeira de novembro, que inclui o feriado de Finados
(antigamente, também o Primeiro de Novembro, Dia de todos os Santos, era feriado), é a semana ideal para escapar do cotidiano. É preciso descansar, dizem meus irmãos que trabalham na roça: “E tu, depois de aposentado, ainda tem a mania de procurar coisas pra fazer, não para nunca, e tirando dinheiro do próprio bolso!!! Que que adianta? Acha que assim vai mudar o mundo, ou o Brasil, que estão todo virados, de pernas pro ar, e não têm mais jeito?” Na sequência, começam a falar dos problemas do cotidiano: a gasolina que sobe todos os dias, a conta de luz também, o financiamento da Caixa para casa própria que parou e só vai reabrir em 2018, os problemas de todos os brasileiros, o dinheiro mais curto, a corrupção e a roubalheira geral, governos não dialogam, só cortam direitos. Ai que saudades do Lula, dizem todos. “E se ele for candidato ano
que vem, vai ganhar. E tudo vai melhorar de novo”.
Entro na conversa. “Então vocês me dão razão. Preciso continuar fazendo o que estou
fazendo, acender esperança, ajudar a organizar o povo, conscientizar, realizar um grande Fórum Social Mundial em Salvador em março. É necessário e vale a pena, apesar de todo meu cansaço e da necessidade urgente de relaxar e descansar.”
Um casal de sabiás resolveu fazer seu ninho em cima da caixa de som na varanda, que fica entre a sala da casa, os quartos e a cozinha, lugar da família unida sentar no verão para tomar o chimarrão antes do meio dia ou no final da tarde, e nos domingos a caipirinha antes do churrasco, depois ficar tomando cerveja. Lugar ideal para admirar a paisagem e o verde, conversar sobre a vida, os vizinhos, os problemas, o passado e o futuro. Mamãe fica cuidando quando os sabiás se aproximam. Eles perscrutam o ambiente e, de repente, quando ninguém se move e tudo está em silêncio, voam para o ninho para chocar os ovos, na feliz espera dos sabiazinhos que estão por nascer.

2017 está terminando. Passou muito rápido, dizem todas e todos. Os vivos, aqueles que
acreditam na vida, na justiça e na democracia, estão sobrevivendo, mesmo a duras penas, e continuam na luta. Há os outros ‘vivos’, os que se aproveitam das situações, enriquecem à custa dos outros, pisoteiam quem está ao redor, zombam dos ingênuos e incautos, estes ‘vivos’ não sobreviverão por muito tempo. Seu tempo há de chegar. Entre os mortos estão os que, em semana de Finados, celebramos por sua dignidade, sua entrega à comunidade e ao bem comum, ou que lutaram pelos ideais da igualdade, pelas boas causas e pela liberdade. Estes, na verdade, não estão mortos: ressuscitam ou ressuscitarão. E há, por outro lado, os que, mesmo que ainda vivos fisicamente, estão mortos há bastante tempo. São vivos-mortos: pecaram por sua ambição desmedida e egoísmo, aderiram à intolerância e ao preconceito, preferem o mal, a injustiça e o
sofrimento, não suportam a verdade e a luz do sol. Estão enterrados: ninguém visita seu túmulo.
O tempo da vida, felizmente, sempre acaba vencendo. A esperança está no horizonte,
ainda que tênue, e muitas vezes debaixo de nuvens e trovoadas. A história está sendo feita todos os dias, à luz da ecologia integral, do Bem Viver, em milhares de gestos e ações cotidianas que expressam a utopia dos que querem a paz, dos que buscam o novo, dos que acreditam num mundo melhor, dos que constroem a alegria e a solidariedade.
Semana que vem vou retomar a pleno a jornada. Parar como? Há que lutar. Há que estar
presente. Não existe o verbo desanimar. É preciso resistir. Os tempos urgem e rugem.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Em três de novembro de dois mil e dezessete

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s