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Bem-vindo ao inferno, general

Por Ana Maria Dubeux no Correio Braziliense

General

foto:(foto: Ed Alves/CB/D.A Press

A decisão do presidente Michel Temer de nomear um interventor para o estado do Rio de Janeiro, que deve ser referendada pelo Congresso nos próximos dias, é simbólica, extrema, polêmica. Para uns, justificável; para outros, passível de muitos questionamentos. Vamos ao quadro já pintado: um governador se declara incapaz de prever o previsível, caso de Pezão em relação ao carnaval do Rio; o prefeito Crivella vai para a Europa em um período crítico para a sua cidade, diz que foi conhecer uma agência espacial para buscar soluções para a violência no Rio (Oi?!); o Brasil e o mundo assistem a cenas estarrecedoras de violência, invasões, arrastões, tiroteios; o número de mortes chega a 200 num ano que mal começou. Somam-se a isso uma falência financeira e um grau de corrupção que levou três ex-governadores para a cadeia. Ou seja, motivos não faltam para uma medida extrema. A questão é: vai funcionar? É assim que se resolve um problema crônico, que ganha proporção ano após ano?

É a primeira vez que uma intervenção federal num estado é decretada desde a promulgação da Constituição de 1988, que prevê a medida. Mas não é a primeira vez que os militares são chamados para ajudar na guerra ao tráfico. Ajuda é uma coisa; liderar um estado, com poderes que se sobrepõem aos do governador, é outra. Passar o comando estratégico da segurança para as mãos dos militares pode amparar a população com um sentimento de maior proteção nesse momento, embora isso não seja necessariamente uma garantia. A medida pode também deixar o presidente Temer numa posição mais confortável perante o eleitorado, já que pareceu estar atento à questão da segurança, importantíssima na escala de prioridades do brasileiro (e isso foi cuidadosamente estudado). Também pode até levar a violência e a questão prisional a serem mais discutidas do que negligenciadas. Mas nada disso nos traz a certeza de que a intervenção é a melhor solução. Talvez só o tempo dirá.

O que não pode acontecer é usar um instrumento de exceção como mais um paliativo. É inadiável enfrentar a fundo a discussão sobre a legalização das drogas como política antiviolência, um tema tabu no Brasil. É preciso questionar leis que levam para a cadeia uma mãe com recém-nascido por portar 90g de maconha, enquanto os barões do tráfico fazem festas nababescas e compram fazendas para lavar dinheiro. É imprescindível eleger políticos que consigam entender que o Estatuto do Desarmamento foi uma conquista e não pode ser anulado, como deseja a bancada da bala e os reacionários. Nada disso está nas mãos do general. E, infelizmente, também não está na cabeça dos que foram eleitos para nos representar. Mas precisa estar no nosso radar. A violência é uma doença que mata. A repressão nunca foi nem será o único remédio a surtir efeito.

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