Educação

VELHA E A JOVEM GUARDA (Por Selvino Heck)

Foi lindo. Foi como um reencontro depois de um longo tempo.

Já no meio da caminhada pelas ruas de Porto Alegre – que voltou a ser a Porto Alegre do Orçamento Participativo e dos Fóruns Sociais Mundiais, ativa, participativa, vibrante – no Ato/Mobilização/Greve contra os cortes na educação pelo governo federal, encontro o professor, mestre e educador popular Balduíno Andreola, professor emérito da UFRGS, de 85 anos, ou mais, devida e diligentemente acompanhado pela professora e educadora popular Conceição Paludo e professora Odete Bresolin, entre outras pessoas, e seguidamente saudado por jovens, menos jovens e idosos feito eu. Ele, Balduíno, feliz da vida, caminhando firme, do começo ao fim da caminhada, sei lá quantos, mas um monte de quilômetros, desde o Instituto de Educação Flores da Cunha, ao lado do Parque Farroupilha, ou Redenção, até o Centro de Porto Alegre, Esquina Democrática, depois de serpentear pelo túnel da Conceição, pela rua Alberto Bins, rua Coronel Vicente, Avenida Mauá, parada no prédio do INSS, ao lado do Mercado Público da capital.

(Na rua Coronel Vicente, lembrei ao professor Balduíno o prédio onde morava o saudoso lutador e educador popular Irmão Antonio Cecchin. Nunca me esqueço da caminhada que fiz com o Ir. Antônio nos seus últimos tempos de vida, descrita num no texto meu, – ‘Santo e Profeta’-, do livro em sua homenagem. Nós dois como se fôssemos os discípulos de Emaús, saindo de uma reunião preparatória ao FSM no CAMP (Centro de Assessoria Multiprofissional), até chegarmos à sua rua e apartamento. Balduíno então lembrou de um encontro/reunião que teve com Cecchin, Leonardo Boff e Hugo Assmann no apartamento em tempos idos, com altos papos filosófico-teológicos, e conversas sobre a vida, a luta e as ações do cotidiano.)

A velha e a jovem guarda (re)encontraram-se aos milhares, senão milhões, no dia 15 de maio em Porto Alegre, e, imagino, em centenas de cidades mobilizadas em todo Brasil contra os cortes na educação de um governo corrupto, ou de malucos, como bem resumiu Lula em entrevista recente, um governo que massacra os pobres, de um Presidente da República que chama os estudantes de ‘idiotas úteis’ e mera massa de manobra.

Eram centenas de idosos, terceira idade, como falou o ex-deputado Pedro Ruas em cima do caminhão na Esquina Democrática. Os quase velhos como eu lembravam-se das caminhadas contra a ditadura, em idos tempos, anos 1960, alguns, anos 1970, muitos, das greves e mobilizações, da jornada das Diretas-Já e da Constituinte nos anos 1980, que deveria ser ‘livre, exclusiva  e soberana’. E depois se mobilizaram contra Collor e suas políticas destruidoras no início dos anos 1990. A seguir, voltaram às ruas contra as políticas neoliberais de FHC, final dos anos 1990. E se mobilizaram para eleger o primeiro metalúrgico e sindicalista, Lula, presidente da República, a primeira presidenta mulher, Dilma, sem se arrepender de seu voto. Talvez alguns não puderam marcar presença neste dia 15 de maio de 2019, como escreveu lindamente Ricardo Kotscho em ‘A Avenida Paulista ficou muito longe pra mim, mas estou com vocês’ (Ver/ler em http://www.balaiodokotscho.com.br).Mas estavam solidários, firmes e felizes. Do meu lado, descobri/confirmei que, nos meia oito recém completados, ainda sou capaz de estar junto da gurizada em qualquer empreitada que valha a pena.

Eram milhares de jovens estudantes nas ruas de Porto Alegre, muitos talvez pela primeira vez na rua numa grande manifestação de massa, caminhando, gritando palavras de ordem, felizes da vida, por um lado, revoltados por outro, mas assumindo a bandeira da educação pública, das políticas públicas e da democracia.

Velha e jovem guarda reunidas finalmente de novo, a dar esperança, a mostrar que há vida, que há futuro, que não se derrota o povo e suas utopias, ainda mais quando este povo se junta,  jovens e mulheres na linha de frente, todas e todos irmanados, unidos, solidários. A chuva fina que de vez em quando caía nas cabeças, rostos e ombros, num dia nublado do outono gaúcho, só umas résteas de sol vez que outra, não assustou ninguém. Todos e todos beberam os pingos de água como se fossem um gostoso chimarrão, e como se fossem lavar a alma, as mentes e os corações, num refresco de esperança, força e luz.

Todo mundo caminhava feliz da vida, sorridente, num tempo de tanta dor, de perda de direitos, de retrocessos. Parecia um renascimento coletivo, algo novo surgindo no ar. Tantos reencontros, tantos abraços, tantos sorrisos, tanta gente desconhecida para velhos marinheiros como eu, o que deixava todo mundo ainda mais feliz. Sangue novo, caras novas, novas energias. Os jovens na rua, os estudantes na rua, a velha mágica, a mística da luta e da solidariedade revividas. As fotos em todos os lugares e redes sociais, circulando como bênção e vida, as imagens que até a Globo e a RBS, a Globo gaúcha, foram ‘obrigadas’ a divulgar, mostraram a vitalidade, a contundência, o tamanho das manifestações. Até na minha terra querida, Venâncio Aires, o jornal conservador local deu destaque aos alunos e professores do Instituto Federal lá existente, IFSul, chorando, mas na rua, jovens e mestres revolucionando a educação, segundo reconhecimento unânime.

Lembrei de uma frase de uma camiseta que recebi da RECID/NE (Rede de Educação Cidadã/Nordeste), e que diz, na parte da frente: ‘Quando o povo se junta, o poder se espalha’. E nas costas: ‘Nossa comunidade é nossa voz’. É o povo assumindo as rédeas e o poder, a voz da comunidade sendo o alto-falante coletivo e geral.

Foi este o sentimento, no meio de tantas emoções, na tarde/noite do 15 de maio nas ruas de Porto Alegre. Agora, é não sair das ruas, a velha e a jovem guarda juntas, unidas, e acompanhadas de muito trabalho de base e formação política, construindo, num novo momento histórico, um projeto estratégico com soberania para o Brasil. Como apareceu num cartaz erguido por um jovem, o futuro pede coragem!

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em dezessete de maio de dois mil e dezenove

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