economia/Rio Grande do Sul

Senador Paim unifica políticos gaúchos em defesa da Ceitec

Extinção da estatal de microeletrônica pelo governo Bolsonaro seria uma punhalada na indústria de tecnologia do país

Walmaro Paz no Brasil de Fato RS

Estatal brasileira é a única empresa da América Latina que atua na fabricação de chips e semicondutores – Divulgação

A decisão do governo federal de fechar o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada, a Ceitec, única fábrica de chips e produtos de microeletrônica na América do Sul, está mobilizando toda a sociedade gaúcha e chegou a unificar toda a representação do Estado no Congresso Federal. Nesta semana, o senador Paulo Paim (PT) articulou com os outros dois senadores, Lasier Martins (Podemos) e Luiz Carlos Heinze (PP), uma reunião com técnicos e trabalhadores da empresa e lideranças do setor tecnológico para tentar impedir a paralisação das atividades, prevista pela área econômica do governo Bolsonaro.

Na qualidade de presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, Paim enviou um ofício solicitando uma audiência pública com os ministros da Casa Civil, general Braga Neto, da Economia, Paulo Guedes, e da Ciência e tecnologia, Marcos Pontes, para tratar do assunto. Na semana anterior ele já havia conversado com os deputados federais Elvino Bohn Gass (PT) e Henrique Fontana (PT) para pedirem uma audiência com Braga Neto. A reunião com o ministro Marcos Pontes, a quem a Ceitec está subordinada, já ficou marcada para a próxima segunda-feira (20) em Brasília. Os outros dois estão revisando as suas agendas.

Para Paim a empresa não deve ser fechada pois desenvolve projetos inovadores na área tecnológica e funciona como indutora de outras empresas do setor. “A estatal desenvolve projetos inovadores na área da microeletrônica, inclusive sensores capazes de detectar a covid-19. Mas, infelizmente, não há interesse do governo em levar o projeto adiante”, explicou.

Segundo ele, a Ceitec fabrica oito tipos de chips e mais de uma dezena de diferentes aplicações, nos segmentos de identificação logística e de patrimônio, identificação pessoal (chip do passaporte), identificação veicular e identificação de animais, cartões de telefonia e de meio de pagamento de chips de terceiros. Desenvolve também projetos de pesquisa de ponta na área de saúde para detecção precoce de câncer e de exames mais rápidos e baratos.

“Esta empresa é peça fundamental, necessária e estratégica na chamada indústria 4.0 (quatro ponto zero) no Brasil. O governo federal pode fomentar a Ceitec adquirindo chip usado na emissão de passaporte e os Correios comprarem TAG de logística. O Brasil é um dos poucos países de economia forte que não domina a cadeia de produção de circuitos integrados”, justificou Paim.

A posição dos trabalhadores


Trabalhadores tem se mobilizado cobrando do governo estadual a permanência da empresa / Divulgação

Criada em 2008, a Ceitec começou a funcionar em 2012 com a contratação dos trabalhadores concursados. O engenheiro Marcos Dossa, da direção da Associação dos Servidores da Ceitec, contou que esta é uma empresa importante estrategicamente, embora não esteja dando resultados financeiros, já tem um acumulo de conhecimento muito grande que não pode ser avaliado financeiramente.

“O principal argumento para o fechamento é que a empresa demanda mais recursos do que recebe do mercado. Nós da associação dos funcionários temos uma série de outros argumentos que poderiam ser usados para rebater este: se perderiam dez anos de criação e pesquisa acumulativa em projetos de microeletrônica de uma forma que não existia no Brasil. Não tem na América do Sul outra empresa como ela e os nossos engenheiros nunca tiveram antes possibilidade de desenvolver projetos como eles fazem. Este conhecimento que vai além do valor comercial vai se perder. Dez anos de conhecimento deste novo mercado”, afirma.

Trabalhadores e representantes sindicais têm realizado uma série de manifestações para alertar a sociedade sobre a importância da permanência da empresa. Em um desses atos simbólicos, foi protocolado um documento no Palácio Piratini, cobrando do governador Eduardo Leite apoio contra extinção da Ceitec.

Um pouco de história

O ex-governador Olívio Dutra, cujo governo começou a criação da Ceitec, lembra que a proposta era a de transformar a Região Metropolitana da capital gaúcha em um grande centro de tecnologia. Já na prefeitura ele começara contatos com as universidades do estado, a PUC, a Unisinos e a UFRGS, para formar uma “incubadora tecnológica”. Estas mesmas instituições participaram das negociações com a Motorola para que o projeto da fábrica de semicondutores e chips viesse para o estado. “Desenvolvemos um projeto sem nenhuma renúncia fiscal, mas com uma proposta convincente. Infelizmente o governo que assumiu o estado não continuou as negociações, porém ganhamos o governo federal e o presidente Lula mostrou interesse em continuar o projeto”, conta o ex-governador.

O engenheiro e professor da PUC, Adão Villaverde, que era secretário de Ciência, Tecnologia e Inovações no governo da Frente Popular, foi o grande articulador do projeto e recorda dos projetos que contribuíram para a efetivação do projeto: “Uma era que o projeto era mais universal que o de São Paulo. A outra é o Porto Alegre Tecnopole, um estudo que o governo municipal fazia na época que definia as regiões com potencial tecnológico da capital gaúcha. Um dos eixos era a avenida Ipiranga, indo até a UFRGS e passando por onde é o Ceitec, hoje na Lomba do Pinheiro. A terceira questão é que o governo federal, desde a época do regime militar inclusive, tinha um projeto de fazer um mergulho nesta área de microeletrônica e, no governo do Fernando Henrique Cardoso, se intensificou um programa nacional de microeletrônica, deu muita cobertura e muito apoio para que o projeto viesse para cá. Portanto houve uma forte articulação entre o governo do estado, o governo municipal e o governo federal. Foi uma política de estado e não de governo. Aqui encontramos apoio do setor produtivo, da sociedade, das universidades. O governador jogou todo o peso nisso aí”.

Villaverde entende que “encerrar o Ceitec hoje é dar uma punhalada na indústria 4.0 do país. Hoje em dia tudo o que se faz as chamadas tecnologias disruptivas, a chamada internet das coisas, os bancos de dados nas nuvens a segurança cibernética, a inteligência artificial, a realidade virtual aumentada drones, tudo depende de chips. Neste momento que está todo mundo querendo diminuir a dependência tecnológica, nós vamos ampliar a dependência que nós já temos”. Para ele, o fechamento “é um equívoco estratégico total, uma atitude sem precedentes”, critica, lembrando que como falta uma liderança neste momento, cabe à sociedade se levantar e fazer um grande movimento.

Edição: Marcelo Ferreira

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