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Para Jornalistas: Como encontrar a história não contada do Brasil idealizado pelos bolsonaristas (Por CarlosWagner*)

No Blog Histórias Mal Contadas

As manifestações antidemocráticas foram um tentativa de acender o estopim da revolta popular que não funcionou. Foto: Reprodução

A tarefa mais difícil no cotidiano do jornalista é a reconstituição de uma história. Ela é uma autópsia dos fatos que noticiamos no dia a dia para os nossos leitores. Como se fosse um corpo, nós colocamos os fatos sobre uma mesa e os abrimos para ver o que tem dentro. É ali que se encontram as respostas para entendermos como o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) está manobrando para se adaptar e conseguir sobreviver ao “cavalo de pau” que a pandemia causada pela Covid-19 deu na rotina das pessoas nos quatro cantos do mundo. Para explicar o hoje, temos que fazer uma autópsia do plano que os bolsonaristas tinham idealizado para o Brasil. Antes de seguir com a conversa é preciso dar uma explicação para quem não era adolescente nos anos 60 sobre a expressão “cavalo de pau”. Era uma manobra que se fazia com o carro e consistia em puxar o freio de mão e ao mesmo tempo virar todo o volante, fazendo o veículo girar 180 graus. Era muito comum os repórteres da minha geração usarem a expressão no meio de um texto para dizer que uma situação se inverteu. Dadas as explicações, vamos à autópsia dos fatos.

Pelo que fizeram nos dois primeiros anos de governo, os ministros e o presidente da República estão longe de serem administradores que serão lembrados com saudade quando terminarem o mandato. A exemplo de todos que assumiram a Presidência, os grupos políticos que apoiaram Bolsonaro têm diferenças de orientação política e cultural. Chama a atenção a presença de grupos para os quais até então ninguém dava bola, como ocultistas, terraplanistas, nazistas, militares saudosistas do golpe de 1964 e oportunistas de todos os calibres, como o advogado Frederick Wassef, que se encostou na família Bolsonaro – a história está disponível na internet. Vamos ver como idealizaram o Brasil os principais personagens dos grupos de apoio ao presidente. Começamos pelos neoliberais, que são representados pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, o homem que queria transformar a economia brasileira na chilena, do ditador Augusto Pinochet (1973 a 1990). Guedes concentrou em suas mãos um poder enorme, absorvendo seis ministérios da área econômica em um só. Assumiu com a promessa de fazer grandes privatizações e uma reforma na Previdência Social que tinha como eixo principal criar um modelo de aposentadoria no qual o trabalhador faria a sua própria poupança. Até agora deu tudo errado para o lado de Guedes. A reforma da Previdência aprovada não foi a que ele idealizou e as privatizações não decolaram. Ele assumiu como superministro e hoje é moribundo no governo.

O Brasil idealizado por Guedes não deu certo porque o país é uma democracia, ao contrário do Chile na época da implantação do modelo neoliberal, quando era governado por uma ditadura militar. O presidente e três de seus filhos, Carlos, vereador do Rio, Flávio, senador do Rio de Janeiro, e Eduardo, deputado federal por São Paulo, idealizaram um Brasil comandado por um presidente forte. No segundo dia de governo foram avisados que precisavam respeitar a Constituição ou teriam problemas. Para mostrar força, povoaram o governo com 6 mil militares de várias patentes da ativa, reserva e reformados. Criaram o Gabinete do Ódio, como a imprensa apelidou as pessoas do círculo pessoal de Bolsonaro, que dão a linha ideológica para o governo. Apoiaram grupos políticos radicais que se envolveram em manifestações antidemocráticas, pedindo o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF). Em uma das manifestações, o presidente estava presente quando eles foram até a porta do quartel-general do Exército, em Brasília, pedir a volta dos militares ao poder, claro que com Bolsonaro como presidente. O Brasil idealizado por Bolsonaro e seus filhos virou fumaça. Hoje o presidente tem com foco usar o prestígio do cargo que ocupa para livrar os seus filhos das garras da Justiça. Restou para o presidente insistir no negacionismo da Covid-19, que matou mais de 170 mil brasileiros. Aqui é o seguinte. Se ele insistir em boicotar as vacinas estará apostando em uma reação popular. Os brasileiros não ficarão de braços cruzados enquanto o resto do mundo se livra da Covid-19. Podem apostar.

Os grupos políticos que apoiaram a eleição do presidente, como nazistas, ocultistas e outros, também fizeram as suas tentativas – há matéria na internet. O Brasil idealizado pelos bolsonaristas nunca teve chance de sair do papel, porque para ele existir é necessário acabar com o estado de direito, que tem como um dos esteios a liberdade de imprensa. Não é por outro motivo que o “inimigo número um” desses grupos são os jornalistas. Comecei na carreira de repórter em 1979, em plena ditadura militar, com a imprensa censurada. Escrever medindo as palavras e camuflando a verdade para não ser descoberta pelo censor é uma experiência que deixou profundas marcas na minha geração. Olhando de cima o governo Bolsonaro parece ser uma confusão de pessoas correndo para todos os lados. Mas não é. Por isso precisamos fazer uma autópsia dos fatos para mostrar ao nosso leitor as verdadeiras intenções do governo. É do jogo a disputa política pelo poder. Não é do jogo passar por cima das instituições. O plano idealizado para o Brasil pelos bolsonaristas foi congelado. Eles precisaram se adaptar para sobreviver politicamente. Daí a aliança com os deputados do Centrão. No que vai dar essa aliança, ainda é cedo para dizer. Aqui entra o que falei lá na abertura do texto. Temos que fazer uma autópsia dos fatos gerados na luta dos bolsonaristas pela implantação do Brasil que eles idealizaram. O que vamos encontrar nessa autópsia vai contar a história que ainda não foi contada. Lembram do episódio de uma manifestação antidemocrática em que o presidente pegou um cavalo de um policial militar e saiu cavalgando? Aquilo não aconteceu ao caso. Foi uma demonstração de força. Todas aquelas manifestações antidemocráticas tinham com objetivo incendiar o país. Por vários motivos não conseguiram. Mas tentaram.

E vão tentar novamente. Por quê? Simples. Esses grupos políticos sempre existiram e agora ganharam visibilidade com Bolsonaro. E caso o presidente perca o seu prestígio político e não se reeleja, eles vão procurar outra pessoa para apostar as suas fichas. Lembremos que no princípio da disputa pela Presidência, em 2018, nem o próprio Bolsonaro acreditava que seria eleito. Uma série de fatos aconteceram que acabaram o elegendo. Nós jornalistas levamos quase um ano para entender como funciona a mente dos bolsonaristas. Eles são truculentos. Mas não são desinformados e muito menos desarticulados. Eles sabem manipular a verdade e plantar a sua versão dos fatos. Nós ainda não conhecemos todo o mecanismo de como as coisas funcionam nas entrelinhas dos bolsonaristas. Mas já sabemos o suficiente para sermos prudentes e muito exatos nas nossas apurações. Também já conhecemos o custo para os brasileiros do choque entre o Brasil que conhecemos e aquele que os bolsonaristas idealizaram: desregulamentação das leis ambientais que acelerou o desmatamento e os incêndios na Floresta Amazônica, gerando ameaças de países como os Estados Unidos de retaliar com sansões econômicas o governo brasileiro. Proliferação de armas e munição, emperramento dos serviços públicos federais e vai por aí a longa lista. Dentro de um ambiente político, econômico e cultural como o atual, é fundamental o nosso leitor ter uma informação precisa e escrita de maneira clara. É por aí, colegas.

*Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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