Brasil/Ditadura

Não há tanques e soldados nas ruas mas militares tomam as rédeas e a catástrofe é iminente, diz Pedrinho Guareschi

Mais de 6 mil militares ocupam Cargos de Confiança no Governo, incluindo vários Generais do Comando das Forças Armadas ocupando Conselhos de Empresas Estatais e cargos com salários altíssimos a ponto de quebrarem a Lei só para eles poderem ganhar acima do Teto Salarial do Governo, algo em torno de R$ 33 mil. Estão em todas as áreas estratégicas (e não estratégicas). Já formam uma casta com legislação própria. E tudo isto foi ocorrendo diante do silêncio tácito das instituições.

O Professor Pedrinho Guareschi, de larga experiência na área da Comunicação e da Educação, escreveu o artigo que reproduzo a seguir, que deveria servir de alerta a todos nós. Bolsonaro é expressão de um mal ainda maior que assola a nação. Mas embora tenha dificuldade de identificar um “ponto de retorno” na Ditadura silenciosa que vai se impondo pela naturalização, como bom pedagogo, ele conjuga o Verbo “ESPERANÇAR” de Paulo Freire e assim como ele, diz:

“Nós somos a esperança”

“Agora não se veem mais tanques e soldados desfilando pelas ruas. A democracia é golpeada por dentro”

“As coisas vão se naturalizando, passo a passo, e os regimes autoritários vão se instalando, sorrateiramente” – Marcos Correa

Às amigas e amigos que me perguntam se vai ter golpe, ou algo semelhante: Devo confessar que estou me sentindo um tanto forçado a postar o que segue. Vai junto um tanto de tristeza, muita preocupação, mas sempre muita esperança. Sei que corro o risco de ser rotulado de extremista, exagerado… e outros adjetivos menos nobres. Minha consciência, fruto de muita reflexão, me impele a fazê-lo. Sempre com cuidado e respeito a quem pensa diferente.

Minha intuição me inclina a pensar, e arrisco dizer, que talvez não seja mais possível segurar a catástrofe, mas é preciso ao menos gritar! Tomo como razões próximas alguns comentários que ouvi e li, anteontem e ontem e, o mais surpreendente, vistos em jornais que dificilmente podem ser chamados de radicais (FSP, Estadão).

A gota d’água para que me decidisse a escrever foi a entrevista do Chico Buarque no programa da Regina Zappa (TV 247), dia 10 de junho. Há um momento em que ele se emociona, começa quase a chorar e diz, com um sentimento de desamparo, que estamos caminhando para uma ditadura. E isso junto com meio milhão de mortes sendo jogadas para baixo do tapete.

Ouvindo o Chico, pensei: os cientistas que procuram pesquisar e analisar os fenômenos sociais, chegam sempre um tanto atrasados. Antes de nós chegam os artistas, pois eles sentem os problemas. E primeiro a gente sente, para depois começar a pensar e a pesquisar. O Chico sente; cabe a nós agora explicitar, penso.

Começo com um ponto importante: os estudos mais criteriosos, sérios, principalmente os mais recentes, que discutem os golpes e as ditaduras mostram que agora não se veem mais tanques e soldados desfilando pelas ruas. A democracia é golpeada por dentro, as instituições, até mesmo Exército, igrejas, imprensa, vão tombando devagar. As coisas vão se naturalizando, passo a passo, e os regimes autoritários vão se instalando, sorrateiramente. Quando nos damos conta, estamos envolvidos por eles.

Por exemplo: como entender esse armamento inexplicável da população, com distribuição de dezenas de armas a quem desejar? Não estaria sendo preparado um exército paralelo? Não podemos ser ingênuos. E isso é feito com justificativas que chegam à hipocrisia. Esse arsenal nas mãos de civis, inclusive fuzis restritos às Forças Armadas, vai a quase 2 milhões de peças, com farta munição.

Além disso, a chocante questão das PMs dos estados, que não se sabe de fato a quem obedecem. É só ver os casos de Fortaleza, onde um comandante, por própria conta, ordena a repressão a manifestantes. Em Brasília um comandante encerra seu discurso com o slogan… dele. E ainda: o baixo oficialato do Exército, cooptado com cargos, benesses e uma sutil ideologia.

O exemplo mais evidente dessa naturalização, do meu ponto de vista, pode ser lido no próprio editorial do Estadão (11/06/2921). Copio: “A declaração do deputado, Ricardo Barros, como a do próprio B (lá está o nome por inteiro) antes dele, constitui ameaça explícita de desobediência civil … Esse desafio à ordem constitucional, de clara natureza golpista, é parte do processo de deterioração da democracia … Ao avisarem que não pretendem acatar ordens judiciais, a não ser as que consideram ‘fundamentadas’, os bolson (sim, eles) expõem com clareza sua estratégia de desmoralizar a democracia, as instituições da República, para submetê-las a seus propósitos liberticidas”. É assim que ditaduras e golpes vão se naturalizando…

E há ainda mais: surpreende – para quem não pára para pensar – os pesados “silêncios” que vão sendo impostos, de maneira indisfarçada: primeiro ao Exército onde o capitão impôs sua vontade, na escolha dos comandantes; depois aos presidentes da Câmara e Senado, eleitos também com seu apoio; a própria Procuradoria-Geral da República, as Polícias Militares, tudo sucumbe aos acenos do líder autoritário. Tudo está tomado. Só não vê quem não quer as peças do tabuleiro sendo preenchidas. Ninguém fala nada claro.

É esclarecedor analisar o “estilo midiático” de nosso falador. Steve Banon, um dos mentores de governos autoritários (inclusive da “família”), ensina que se deve fazer afirmações chocantes, que causem escândalo. Mesmo que se saiba que são irreais, insensatas e beirem a loucura. Mas todos vão tomar conhecimento, todos vão comentar. Afirma-se, mesmo que depois se tentem explicações, se dissimule. Não se nega, diz-se de outro modo. Mas o mais importante já aconteceu.

Pensem no caso brasileiro: todo dia, no “cercadinho”, “ele” surpreende, choca. E assim, “ele” está sempre na mídia. Seu nome corre de boca em boca. E isso é o que importa para o rebanho. O que está é o que existe, o que vale. Nesse “ir e vir”, “dizer e desdizer”, o que se quer – golpe, ditadura etc., vai se naturalizando, vai parecendo normal, possível. Não foi isso que aconteceu com sua fala da supressão do uso da máscara? Todos gritaram, mas “ele” é o nome que aparece, é o centro da questão, ele é a notícia. E assim dezenas de exemplos nesses últimos meses…

Minha humilde opinião: nesse momento o que não podemos abrir mão é lutar contra tudo o que possa impedir uma discussão nacional, aberta, uma campanha plural e crítica, para que a população possa se manifestar com sua fala limpa e consciente. Já se veem tentativas de deslegitimar o processo democrático de escolha.

Nunca podemos abandonar a esperança, “nós somos esperança” (Paulo Freire). E a ação não é determinada, ela é imprevisível, já nos dizia Hannah Arendt.

* Pedrinho Guareschi possui graduação em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Imaculada Conceição (1969), graduação em Teologia pelo Instituto Redentorista de Estudos Superiores de SP (1964), pós-graduação em Sociologia pela PUCRS (1965), graduação em Letras pela Universidade de Passo Fundo (1968), mestrado em Psicologia Social – Marquette University Milwaudee (1973), doutorado em Psicologia Social – University Of Wisconsin At Madison (1980). Pós-doutorado no departamento de Ciências Sociais na Universidade de Wisconsin (1991). Pós-doutorado no departamento de Ciências Sociais na Universidade de Cambridge (2002). Pós-doutorado na Università degli Studi La Sapienza, Roma, no departamento de Psicologia (2014/15). De 1969 a 2009 foi professor no Programa de Pós-Graduação em Psicologia na PUCRS. Atualmente é professor convidado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Conferencista Internacional. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social, atuando principalmente nos seguintes temas: mídia, ideologia, representações sociais, ética, comunicação e educação. Trabalhou como professor visitante da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

** Texto publicado originalmente no perfil do Pedrinho Guareschi, no Facebook, no sábado, dia 12 de junho de 2021 e reblogado do BRASIL DE FATO RS

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