Brasil/Lula/soberania nacional

Para o Brasil, o caminho do futuro é retomarmos o fio da nossa história, escreve José Dirceu em novo artigo

“Retomarmos o fio de nossa História que se traduz na defesa da soberania nacional e na consolidação da democracia que exige uma revolução social que desconcentre renda, riqueza e patrimônio…”

Reblogado do Poder 360

Estou usando propositalmente a palavra “Futuro” para me contrapor à expressão a Ponte para o Futuro que deu base programática ao golpe parlamentar-jurídico que depôs a presidenta Dilma e levou o Brasil e seu povo a essa tragédia nacional e humanitária que estamos vivendo uma emergência social, ambiental e democrática.

Hoje, temos condições de fazer um balanço da Ponte para o Atraso e o Obscurantismo, o negacionismo e o autoritarismo que nos levou de volta ao passado. De volta a 40 anos atrás, ao Consenso de Washington, a era Reagan e Thatcher, quando a China iniciava a caminhada para se transformar em uma potência no século 21 e as crises de 2008-9 e 2012 trariam de volta o Estado como regulador e indutor do desenvolvimento.

Antes, o 11 de setembro de 2001 daria sobrevida à era neoliberal com a desregulamentação absoluta do capitalismo e a sua financeirização que enterrou de vez o acordo de Bretton Woods, permitindo aos Estados Unidos exercer seu poder imperial por todo mundo ao mesmo tempo em que a globalização paria a nova era que já vivemos.

Uma das imagens factuais mais fortes do fracasso do neoliberalismo é a recente saída das tropas invasoras norte-americanas do Afeganistão. Ela só veio depois que a pandemia do novo coronavírus tomou conta do mundo a partir de janeiro de 2019, contaminando 220 milhões de pessoas com 4,5 milhões de mortos até outubro de 2021, e obrigou os países capitalistas desenvolvidos a rever suas políticas econômicas, com maior presença do Estado e programas de distribuição de renda e proteção das populações mais vulneráveis.

Já a China, 1º país atingido pelo vírus, conseguiu conter mais rapidamente o avanço da pandemia graças ao seu eficiente sistema de saúde pública gratuito e universal e às medidas de isolamento adotadas, registrou um número relativamente pequeno de doentes e mortos frente ao tamanho de sua população, mas enfrentou recuos em seu crescimento econômico nos dois últimos anos. Mesmo assim, registrou PIB positivo e vem consolidando sua posição de liderança.

As radicais mudanças que assistimos e a emergência da crise climática, o agravamento da concentração de renda no mundo, da desigualdade, do racismo, do xenofobismo, do autoritarismo de extrema-direita se contrapõem a uma das maiores revoluções tecnológicas que já vivemos e expõem o fracasso do neoliberalismo e das ideias-força que impulsionaram sua hegemonia por todo mundo.

As consequências da adoção por nossas elites da hegemonia norte-americana como natural e do ideário neoliberal como única saída estão desnudadas na figura caricata de Jair Bolsonaro e de seu governo e na tragédia que estamos vivendo. Depois de 5 anos e meio de governos Temer e Bolsonaro, o que assistimos é a um aumento da pobreza e a combinação de crises sociais e políticas com a crise climática e energética.

Nada deu certo. Nenhuma das promessas foi cumprida, não há confiança e segurança jurídica, a instabilidade política é a regra com ataques às instituições, à democracia e à Constituição de 1988. O único objetivo é desmontar o Estado Nacional construído desde a Revolução de 30 e desconstituir os direitos sociais e políticos que os trabalhadores e o povo conquistaram na luta social e política.

A pergunta que temos que responder é como foi possível levar o país a regredir à década de 1980 –um país que é o 5º em território, o 6º em população, uma das 10 maiores economias do mundo, industrializado, com soberania alimentar, energética e tecnológica, com indústria de base, um dos maiores mercados internos do mundo com acesso ao mercado sul-americano, um continente rico, sem inverno, com água e terras aráveis, com a maior parte da Amazônia, uma civilização nos trópicos?

A resposta está na opção de nossas elites colonizadas que se renderam aos seus interesses de classe e os colocaram acima da nação e do povo, como aliás sempre o fizeram em momentos decisivos de nossa história. Nesses momentos prevalece seu elitismo racista e preconceituoso, resultado de nosso processo de colonização e de mais de 3 séculos de escravidão, sua eterna visão patrimonialista e a defesa da concentração de renda à custa dos direitos sociais de trabalhadores.

Há uma janela de oportunidade para o Brasil se entendermos as mudanças que a própria crise do capitalismo neoliberal nos apresenta, se formos capazes de nos apropriarmos da revolução tecnológica naquilo que ela possa responder às demandas sociais de nosso país, assumindo a agenda ambiental e energética que se colocam. E retomarmos o fio de nossa História que se traduz na defesa da soberania nacional e na consolidação da democracia que exige uma revolução social que desconcentre renda, riqueza e patrimônio.

O mundo que está nascendo é feminino, jovem, negro, diverso e plural, digital e ecológico, orgânico, asiático, africano e, se depender de nós, latino-americano. Um mundo novo que não será possível com elites, como as nossas, que concentram renda e riqueza. Com elas, o mundo caminhará para o autoritarismo e obscurantismo, de volta ao nacionalismo xenófobo, ao racismo e ao fundamentalismo religioso, à pobreza e à miséria das maiorias, como já assistimos em vários países, inclusive no nosso –um passado que já está se transformando de novo em presente.

É esse Brasil, nosso povo e o seu futuro que está em jogo em 2022, que rumo tomaremos. Continuaremos no passado como hoje, com ideias e propostas abandonadas até pelos Estados Unidos e pela Europa, seremos a vanguarda do atraso ou retomaremos o papel do Brasil no mundo, colocando nosso povo no seu lugar de direito.

Colocar nosso povo no lugar que lhe pertence é defender um Brasil soberano, democrático e justo, um Brasil onde brasileiras e brasileiros sejam donos de seu destino e o trabalhador, assalariado ou autônomo, esteja no centro do projeto de desenvolvimento, em igualdade de condições com o empresário. Um país que valorize e defenda seu patrimônio nacional, seus recursos materiais (a terra, a água, o petróleo, os minerais, a agricultura) e imateriais (a cultura, a educação, a ciência, o saber tradicional), os direitos sociais e trabalhistas de seu povo, a sua integração com os países vizinhos e uma.

São muitos os desafios para vencer o desmonte das políticas públicas de que se encarregaram, articuladamente e para atingir as populações mais vulneráveis e as políticas públicas universais objeto de desejo dos privatistas, os governos Temer e Bolsonaro. Os mais relevantes e imediatos estão na distribuição da renda e na educação.

Para retomar o caminho do desenvolvimento é preciso, antes de mais nada, retomar o combate à pobreza e a geração de empregos, em especial para a juventude, associados a um programa nacional de inclusão digital das escolas públicas e de preparação dos estudantes para as novas profissões do mundo digital. Isso exige criar condições fiscais, por meio de reformas tributária, financeira e política, para que o Estado execute sua missão.

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