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A Armadilha dos Juros e o Falso Dilema Fiscal: O Caminho para o Brasil Crescer

Por Cássio Moreira*

​Todos os dias, o noticiário económico repete a mesma história: o governo brasileiro gasta demais, o país está quebrado, a dívida pública bateu 82,9% do nosso Produto Interno Bruto (PIB) e a única saída é cortar investimentos. No entanto, quando olhamos para os números reais da economia sob a ótica de quem quer ver o país se desenvolver, percebemos que o diagnóstico oficial está de cabeça para baixo. O grande rombo nas contas do Brasil não vem do elevado gasto público, seja na construção de estradas, escolas, hospitais ou salário de servidores, mas sim da nossa política de juros.
​Para entender essa armadilha, precisamos primeiro desfazer a ilusão sobre o real tamanho da nossa dívida. O Brasil possui soberania monetária, ou seja, quase a totalidade da nossa dívida é interna e emitida em reais, a moeda que o próprio Estado fabrica. Isso significa que o risco de o país “falir” e não conseguir pagar aos seus credores simplesmente não existe na prática.
​Além disso, a forma como o Banco Central conta a nossa dívida é uma imensa distorção. O Brasil inclui na sua conta principal (a chamada Dívida Bruta) o dinheiro que o Banco Central usa apenas para enxugar dinheiro dos bancos privados e controlar a inflação (as operações compromissadas). É como se contasse um dinheiro que está apenas a guardar para um vizinho como se fosse uma dívida do seu próprio cartão de crédito. Se usássemos a regra internacional do Fundo Monetário Internacional (FMI) — que separa o que é política dos bancos e o que é gasto real do governo —, a nossa dívida cairia na hora para cerca de 65% a 67% do PIB. Voltaríamos a ser um país com contas normais para o padrão dos emergentes, esvaziando o pânico financeiro. E para quem teme o curto prazo: o Tesouro Nacional tem hoje um “colchão” de R$ 1,2 biliões guardado, o que garante o pagamento de todas as dívidas dos próximos sete meses sem nenhum sobressalto.

​O Verdadeiro Vilão: Como os Juros Criam o Rombo

​O senso comum diz que o governo gasta muito e, por isso, o Banco Central é “obrigado” a subir a taxa de juros (Selic) para segurar a inflação. A realidade matemática é exatamente a oposta: são os juros altíssimos que criam o nosso rombo.
​Como quase metade da nossa dívida está atrelada à taxa Selic, cada vez que o Banco Central mantém os juros nas alturas, a dívida do país engorda sozinha. Os dados de agosto de 2026 provam isso de forma assustadora: o governo gastou R$ 105,9 mil milhões apenas a pagar juros da dívida num único mês, enquanto o “furo” nas contas do dia a dia do governo (o défice primário) foi de apenas R$ 10 mil milhões. Ou seja, o custo dos juros foi dez vezes maior que o desequilíbrio das contas operacionais. O país corta dinheiro da merenda e da infraestrutura apenas para pagar juros a quem vive de renda, travando o crescimento das empresas e a geração de empregos.

​A Camisa de Forças das Metas de Inflação

​A justificativa oficial para estes juros escorchantes é sempre a mesma: precisamos de cumprir a meta de inflação, hoje fixada em irrealistas 3% ao ano. Aqui mora um dos maiores erros de diagnóstico da nossa economia.
​O atual sistema de metas pressupõe que toda a inflação é causada por pessoas a comprar demais (excesso de procura). Só que a inflação brasileira costuma ser de custos: os preços sobem por causa de quebras de safra agrícola, falta de chuvas que encarece a energia elétrica, ou crises internacionais que disparam o dólar e o preço do petróleo.
​Tentar curar a inflação de alimentos ou da gasolina subindo a taxa de juros para 14% ao ano é como aplicar quimioterapia para tratar um braço partido: o remédio não cura o problema real, mas destrói o organismo do paciente. O juro alto não faz chover nas hidroelétricas nem reduz o preço do petróleo no exterior, ele apenas encarece o crédito, quebra o pequeno empresário e suga o dinheiro público. Precisamos de ajustar o centro dessa meta para patamares realistas (como 4,5% a 5%), o que daria espaço para a economia respirar e crescer sem que o Banco Central precise de engatilhar a arma dos juros a cada choque passageiro de preços.

​Um Plano Prático para o Desenvolvimento

​Para o Brasil sair desta estagnação e voltar a crescer, precisamos de parar de usar o remédio errado. Precisamos de cinco mudanças urgentes e práticas:

​Um Banco Central focado também no emprego: A lei deve obrigar o Banco Central a preocupar-se tanto com a geração de empregos e o crescimento quanto com o controlo dos preços (o chamado Duplo Mandato). Para segurar a inflação em setores específicos, o governo deve usar ferramentas macroprudenciais e cirúrgicas (como regras para o crédito bancário) em vez de dar uma marretada nos juros de toda a economia.

​Fundos de estabilização para proteger o povo: O preço dos combustíveis e da energia não pode ficar à mercê da especulação internacional. O Estado precisa de criar fundos que funcionem como “amortecedores”, usando recursos de épocas boas para segurar os preços em épocas de crise, impedindo que a guerra no exterior vire inflação na padaria na manhã seguinte.

​Tratar o investimento como riqueza, não como gasto: É urgente separar o orçamento do dia a dia (custeio) do orçamento de obras (capital). A matemática económica prova que investir em obras certas se paga a si mesmo no longo prazo. Quando o governo gasta para construir uma ferrovia, a economia cresce mais rápido do que os juros da dívida. A dívida, proporcionalmente ao tamanho do país, acaba por cair naturalmente. Por isso, o dinheiro para construir pontes e comboios não pode ser cortado na mesma tesourada que corta o cafezinho da repartição pública.

​Centros de Distribuição de Alimentos e Ferrovias: A inflação que mais castiga o povo é a do supermercado. Hoje, o preço da comida explode por causa do desperdício logístico extremo e dos “atravessadores” — oligopólios de intermediação que capturam as margens de lucro. A verdadeira luta contra a inflação alimentar faz-se criando redes de atacado e centros estatais de distribuição de alimentos. Modernizando as CEASAs e interligando estes hubs logísticos a uma nova rede ferroviária, o Estado conecta diretamente a agricultura familiar ao consumidor urbano. Isto elimina o poder dos intermediários, reduz o custo do frete (isolando-o da crise do gasóleo) e garante comida barata na prateleira, cortando a inflação pela raiz e tirando ao Banco Central a desculpa para subir os juros.

​O Estado abre o caminho, a empresa privada acompanha: Não falta dinheiro para grandes obras, desde que elas sejam financiadas de forma inteligente. Usando bancos públicos como o BNDES e adotando travas contra a fuga de capitais, o Estado consegue financiar as suas ferrovias e centros logísticos sem causar pânico cambial. O Estado seria a locomotiva e a iniciativa privada as carruagens; eles não concorrem entre si, mas complementam-se. Quando o governo tem a coragem de iniciar a grande obra assumindo o primeiro risco estrutural, os empresários vêm logo atrás, construindo fábricas, armazéns e portos na envolvente. O investimento público não rouba o lugar do privado; ele constrói o palco para a iniciativa privada brilhar.
​A escolha que o Brasil tem pela frente é muito clara. Não se trata de gastar com irresponsabilidade, mas de parar de sacrificar o nosso futuro produtivo apenas para cumprir regras fiscais paralisantes e pagar juros abusivos. O crescimento e a riqueza do país nascem da produção, da logística e do trabalho, e não da contabilidade que prioriza o rentismo.

​*Cássio Moreira é Pós-Doutor em História (UFF) e Doutor em Economia (UFRGS). Professor de Economia do IFRS, Professor colaborador da Pós-Graduação em Economia da UFRGS, autor do livro “O Projeto de Nação do Governo João Goulart” e criador do Canal Conversas e Café no YouTube.


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