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Quando o Absurdo Vira Regra: A “Banalidade do Mal” nas Escolas e no Rio Grande

Reportagem do Sul21 traz uma sequência de casos de dar nó no estômago. Não é só sobre divergência política no calor de uma eleição; é sobre a facilidade assustadora com que gente comum passa a achar normal perseguir o vizinho, o professor ou o funcionário da esquina por puro patrulhamento ideológico.

Quando você junta os absurdos cometidos em colégios tradicionais de Porto Alegre narrados com as listas de boicote a comércios e prestadores de serviço que votaram elm Lula, o cenário que se desenha é muito claro.

A filósofa Hannah Arendt chamava esse fenômeno de “banalidade do mal”: o momento em que a intolerância perde o caráter de absurdo e passa a ser praticada no piloto automático, como se fosse um dever moral ou um mero passatempo de grupo.

Do Vermelho de Natal ao Detetive de WhatsApp

O que aconteceu no Colégio Anchieta é o retrato perfeito dessa paranóia que se repete desde o resultado das eleições presidenciais.

Bastou uma funcionária ir trabalhar vestindo uma camiseta vermelha para que um grupo de pais no WhatsApp entrasse em parafuso.

O rosto da mulher foi fotografado sem autorização, jogado no grupo e tratado como uma afronta. Para completar a cena, teve pai reclamando até dos postes com decoração natalina vermelha na frente do colégio, jurando que era uma “cospiração” ideológica.

Enquanto isso, circulavam combinações para vigiar quem usava a cor no pátio e listas com nomes de professores a serem marcados.

A fofoca de corredor virou expediente de vigilância.

Ninguém ali se enxerga como um agressor; no raciocínio do grupo, fotografar uma trabalhadora em segredo para queimá-la com a direção é um ato “em defesa da família” ou da escola.

Essa é a engrenagem exata da banalidade do mal: a pessoa abre mão de pensar com a própria cabeça, esquece o respeito básico pelo outro e passa a agir como um vigia voluntário da vida alheia.

O Show de Constrangimento no Colégio Rio Branco

No Instituto Estadual Rio Branco, o patrulhamento ganhou contornos ainda mais escancarados com a presença de figura política local.

A vereadora Mariana Lescano (PP) foi até a escola bater boca com a direção sob a justificativa de combater “doutrinação”.

Quando os próprios estudantes resolveram protestar contra a atitude, acabaram sendo filmados (mesmo sendo menores de idade) e zombados abertamente nas redes sociais por irem à manifestação acompanhados das mães.

O ponto central aqui é o deboche e a exposição.

Quando uma autoridade entra no ambiente escolar para expor adolescentes e rir de quem se opõe ao seu discurso, a mensagem transmitida para a sociedade é de que coagir, filmar sem autorização e ridicularizar o divergente são comportamentos aceitáveis.

O constrangimento público vira método política aprovado pela claque.

O Flerte Perigoso com a História

A lógica de tentar quebrar o comércio do vizinho, demitir o funcionário por causa do voto ou fazer lista de quem pode ou não trabalhar guarda semelhanças assustadoras com momentos sombrios do passado.

Nos anos 1930, o movimento de boicote na Alemanha (Judenboykott) não começou com grandes episódios de violência física no primeiro dia; começou exatamente com a marcação de portas, com a vigilância na rua, com a lista de quem não se devia comprar e com o isolamento social do “diferente”.

A história mostra que a violência explícita — como foi a Noite dos Cristais — só acontece depois que a sociedade já se habituou a ver o outro ser humilhado, boicotado e marcado no cotidiano sem que ninguém se importe.

Quando a Gente Acha Tudo Normal, o Limite Some

O perigo real não está apenas no extremista que faz barulho; está na complacência da maioria que acha graça, compartilha a foto no grupo de mensagem ou acha “justo” prejudicar quem pensa diferente.

Escola e universidade existem para ensinar a conviver com o contraditório, não para virar tribunal de inquisição.

Quando a gente aceita que uma roupa, um post ou uma opinião política sejam motivo para perseguir um professor, um funcionário ou um estudante, a democracia já começou a ruir na nossa porta.

A banalidade do mal começa justamente aí: no momento em que a atrocidade pequena do dia a dia deixa de causar vergonha.


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