DILMA

ELA

Dilma pronunciamentoPor Selvino Heck*

“Ela, a mulher./Ela, dizem, a durona, a inflexível./ Ela, segundo alguns, a (quase) megera, / a mandona./ Ela, porém, a que não dialoga com bandidos,/ a que não protege malfeitores,/ a mãe do espaço que sabe tudo,/ a que, presa e torturada,/ não entregou próximos e aliados/ na bandeja das almas./ Ela, a companheira,/ a que não dorme, vigilante,/ no carinho aos humilhados e desvalidos./ Ela, a que enxerga e revisa tudo,/ vírgula por vírgula,/ ponto por ponto,/ palavra por palavra,/ argumento por argumento./ Ela, a dona do pedaço,/ a que `sequestrou` os homens e os machos/ de seu labirinto de poder,/ de sua segurança privada,/ de seu secular refúgio./ E os deixou nus,/ calças na mão./ Ela, que outrora fez da democracia seu estandarte,/ que lutou por seu alvorecer ao longo da vida,/ que nos tempos contemporâneos,/ os tempos que correm,/ fez da democracia de novo sua bandeira./ Ela, a mulher./ Ela, a guerreira/ e seu grito de independência ou morte./ Ela, que fez das ruas a Casa das mulheres./ Ela é deste céu./ Ela é deste mar./ Ela é deste chão.”

Os versos acima, escritos por mim em dezenove de junho, fazem parte de um poema maior que tem por título DIÁRIO – POEMAS DO/CONTRA O GOLPE, escrito entre maio e junho. Começa assim. “O PRIMEIRO TIRO: O primeiro tiro ecoou na Casa./ Foi um tiro de advertência./ Passou raspando na cabeça do povo,/ quase estilhaçou a Esplanada./ Mordeu os lábios dos corruptos,/ armou a tenda no Salão Verde,/ deixou o recado pro `baixo clero`./ Não foi tiro mortal,/ mas tinha direção:/ semear dúvidas,/ acabar com veleidades,/ acordar a turba./ Um aviso soturno./ O futuro é aberto e não sabido,/o caos se avizinha./ Há um grito parado no ar,/ a lei não vale nada,/ nem a vontade popular/ou o consenso partilhado./ O circo está armado,/ a dança da guerra vai começar,/ Viva a republiqueta de bananas!” (29.05.16).

O histórico discurso da sempre presidenta Dilma Vana Rousseff no Senado antes de sofrer o impeachment torna-os quase proféticos. Disse ela: “Disso tenho orgulho. Quem acredita luta. E resisto. Resistir sempre. Resistir para acordar as consciências adormecidas para que, juntos, finquemos o pé no terreno que está do lado certo da história. Mesmo que o chão trema e ameace de novo nos engolir. Luto pela democracia, pela verdade e pela justiça. Luto pelo povo do meu país, pelo seu bem-estar.”

Dizem que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar.  Mas caiu. Nos anos 1970, a presa política da ditadura, torturada, lutou, resistiu, não entregou ninguém. Manteve o olhar firme, olhando para frente, o queixo ereto, enquanto dois sabugos, militares sem coragem, tentavam esconder o rosto para a história, para não serem reconhecidos, na foto famosa. Agora, 2016, o mesmo olhar firme, o mesmo queixo ereto, olhando para seus sabujos julgadores do Senado, sem medo, com altivez, de quem `está do lado certo da história`. Eles não estão, nunca estarão do lado certo. Os livros e o povo irão dizê-lo cada vez mais. Eles se esgueirarão pelos fundos das salas, como fez Cristovam Buarque em pleno Senado, em lance vergonhoso, porque não conseguem aparecer à luz e mostrar a cara e a coragem.

O longo poema, subdividido em 14 Tiros e (Não) Tiros, o último subdividido em dezessete poemas (está completo em minha página no facebook), termina assim:  O DÉCIMO QUARTO (NÃO) TIRO – o último – XVII: “A republiqueta de bananas caiu de podre,/ como despenca do céu e do ar o que está cheirando mal,/ está fedido,/ não pode ser mastigado,/ embrulha o estômago./ O silêncio dos mortos deixou de ser notícia./ As Globos e seus porta-vozes foram derrotados,/  o espetáculo substituído e enterrado pela história./ A crise perdeu o prazo de validade,/ o passaporte./ O título  de impostura foi concedido em praça pública./ O tempo de morte acabou./ A memória revigorou o tempo./ O Reino da verdade, da justiça e da vida triunfou e reina:/ soberano,/justo,/ eterno./ A rua cantou.”

Disse Ela, a eterna presidenta Dilma, em sua posse: “Nenhum direito a menos.” E na despedida do Palácio do Alvorada: “Nada nos fará recuar. Não direi adeus.”

*Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em dois de setembro de dois mil e dezesseis

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