política

A casa do porto-alegrense Luis Carlos Prestes que Inaugura Hoje (por Vicente Rauber)

MemorialLembrei que o Prestes tinha um grande amigo, que conhecia como poucos a sua história, e era reconhecido como um dos maiores arquitetos do mundo: Oscar Niemeyer. 

Corria o mês de julho de 1990. Então eu ocupava o honroso cargo de Assessor Engenheiro do então prefeito de Porto Alegre, Olívio Dutra, que era uma espécie de primeiro escalão sediado no Gabinete do Prefeito, com atribuições legais e determinações específicas do chefe do Executivo municipal. O prefeito tinha acabado de sancionar a lei Complementar Nº 229, de 18/7/1990, que “Autoriza o Executivo Municipal a edificar equipamento público de caráter cultural, denominando Memorial Luis Carlos Prestes”. A ordem do Prefeito era muito simples: “trabalhe para viabilizar a Lei”.

O terreno a própria Lei definia. Não havia orçamento público delimitado. Primeira preocupação: uma edificação precisa de projeto, de preferência, um bom projeto que retrate a história do homenageado. Lembrei que o Prestes tinha um grande amigo, que conhecia como poucos a sua história, e era reconhecido como um dos maiores arquitetos do mundo: Oscar Niemeyer.

Descobri o telefone do arquiteto famoso e tomei coragem: “pois é, caro Niemeyer, a Câmara Municipal e a prefeitura de Porto Alegre decidiram por um Memorial ao Prestes, mas não temos dinheiro; o que poderíamos fazer?” Resposta sem nenhum rodeio ou floreio: “o projeto é meu, reúna arquitetos da prefeitura que venham ao meu escritório com o máximo de informações da localização do terreno. Farei-o com muito prazer, ainda mais que Porto Alegre não conta com nenhuma obra minha”.

O resto desta participação conto no final deste artigo.

Lembrei-me então da oportunidade que tive ao participar na década de 80, de uma importante reunião com o Prestes  promovida pela Executiva Estadual da CUT (que eu integrava). E por que chamamos Prestes? Éramos um grupo de militantes que tratava de criar um sindicalismo novo, independente do Estado. Após 25 anos de ditadura militar, lutávamos por um Brasil mais democrático, mais justo, que enfrentasse os sérios problemas sociais, isto tudo nos marcos da democracia que havíamos conquistado. Prestes tinha uma história cheia destes propósitos, lutando em épocas ditadoriais, estava de volta ao Brasil e era parceiro neste novo contexto.

Luis Carlos Prestes nasceu em 3 de agosto de 1898 num sobrado da Rua Riachuelo, primeiro filho do militar Antonio Pereira Prestes e Maria Leocádia Pereira Prestes. Seu pai faleceu quando ele tinha 10 anos e a pensão deixada era insuficiente para pagar as contas da família. Foi buscar amparo no Colégio Militar e depois na Escola Militar do Realengo, RJ (precursora da Academia Militar das Agulhas Negras), onde graduou-se como Engenheiro Militar especializado em ferrovias, em 1919. Ocupava a função de tenente (chegou a capitão posteriormente) e trabalhava no exército construindo estradas de ferro. Diante do governo oligárquico de Artur Bernardes, tomou consciência de que era necessária outra obra importante para o País, ou seja, a construção de uma nação voltada às necessidades de seu povo. Em 1924 participou das revoltas tenentistas que propugnavam por uma Assembléia Constituinte e pelo voto secreto. Depois destas revoltas reuniu-se, em Foz do Iguaçu, com um grupo de militares paulistas e concebeu-se a Coluna Prestes. A Coluna não tinha orientação partidária definida, era um movimento com lideranças das mais diversas correntes políticas, sendo a maioria capitães e tenentes, que se identificavam como “soldados cidadãos”. Seus objetivos: implantar o voto secreto e o ensino fundamental obrigatório no Brasil e acabar com a miséria e injustiça social no país. Não conhecemos nenhuma organização política que, pelo menos abertamente, não defenda estes objetivos hoje.

Como fazê-lo? Mal comparando, hoje certamente seria produzido um post, que lançado nas redes sociais, atingiria milhões de brasileiros em algumas horas. Outro aspecto é que as redes sociais não substituem as manifestações presenciais, assim como assistir um jogo de futebol no estádio é diferente de vê-lo atirado num sofá, ainda que a transmissora use 20 câmeras capazes em detectar os mínimos detalhes. Na época não havia nenhuma possibilidade de pregação pública de quaisquer idéias diferentes do governo. Então criou-se uma marcha que ia deslocando-se pelo País, fazendo a pregação de suas idéias e escutando a população, de local em local. Evitava o enfrentamento com as tropas legalistas através de disfarces, o que, entre outros aspectos, poupava vidas.

Prestes havia sido transferido para Santo Ângelo e dirigia a construção da ferrovia entre este município e Giruá. Em abril de 1925, inicia a marcha em Santo Ângelo, tendo um núcleo fixo de 200 pessoas, percorreu 25.000 km (a maior marcha da história), em 11 estados brasileiros, chegando a ter 1.500 participantes no Mato Grosso. Em 1927, já sob o governo federal de Washington Luis e tendo enfrentado 53 combates, os militantes restantes, exauridos, dissolvem a marcha, exilando-se na Bolívia e Paraguai.

Embora a Coluna Prestes não tenha alcançado seu objetivo mais direto que era um novo governo para o Brasil, produziu grande conscientização na população, culminando na Revolução de 1930, liderada por outro gaúcho, Getúlio Vargas. Prestes, que então havia aderido ao Partido Comunista, exilado na Bolívia e Argentina, foi convidado por Getúlio a participar da Revolução. Optou por continuar seus estudos, indo, em 1931, por convite do Partido Comunista Uruguaio, morar na União Soviética, onde trabalhou como engenheiro, fez muitas relações com a comunidade comunista internacional, e casou com a judia alemã, integrante do Partido Comunista alemão, Olga Benário.

Em 1934 o Partido Comunista Brasileiro (PCB) já era proibido no Brasil, Prestes e Olga Benário, retornam clandestinamente. Em 1935, o PCB passa a ter o apoio da ALN (Aliança Libertadora Nacional), tendo Prestes como Presidente de Honra. A ALN teve enorme crescimento, incluindo militares revoltados, lançou um manifesto para a derrubada do presidente, que a colocou na clandestinidade. Juntamente com um grupo de comunistas, Prestes é preso em março de 1936 numa casa no bairro de Méier no Rio de Janeiro, o que provocou o Levante Antifascista da ALN, pejorativamente conhecido por “Intentona Comunista”. Os maus tratos recebidos na prisão por Prestes eram tão cruéis que seu advogado, Sobral Pinto, apelou em sua defesa através de uma lei de proteção aos animais! Sua esposa, Olga Benário, grávida, é entregue à policia política nazista de Hitler, a Gestapo. Sua filha, Anita Leocádia Prestes, nasce na prisão nazista em 1937 e decorrente de uma campanha internacional é entregue à avó, enquanto sua mãe, Olga, é morta na câmara de gás, no campo de concentração de Bernburg, em abril de 1942.

Com o fim do Estado Novo, Prestes é anistiado e em 1946 é eleito Deputado Constituinte pelo PCB, compondo uma numerosa bancada de 14 membros, entre eles o escritor baiano Jorge Amado, que o retratou protagonista na obra chamada “Cavaleiro da Esperança”. Na área cultural recebeu ainda muitas outras homenagens, entre as quais, a canção “Cavaleiro da Esperança” do compositor Taiguara, da Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio com o enredo “Prestes, o Cavaleiro da Esperança” e citado em várias obras do poeta chileno Pablo Neruda.

Em seguida, o Partido Comunista é colocado novamente na clandestinidade. Em 1958, Prestes teve a prisão novamente decretada, mas conseguiu revogá-la por mandado judicial.

Em 1964, a ditadura militar contemplou-o no AI-1 (primeiro Ato Institucional), tendo seus direitos de cidadão revogados por 10 anos. Foi perseguido, mas conseguiu fugir para a União Soviética, de onde retornou com a anistia, em 1979. Só então conhece a filha, Anita, que estava como nove anos de idade.

Durante os anos 80, já participando da redemocratização do País,  passou a ser crítico do Partido Comunista, defendendo a “necessidade de um partido comunista efetivamente revolucionário, partido que deveria surgir das lutas do povo, dos quadros que daí se forjariam”. Apoiou criticamente as candidaturas de Leonel Brizola ao Governo do Rio de Janeiro e, depois, em 1989, à Presidência da República. Recebeu o título de “Presidente de Honra do PDT”,  que manteve até a sua morte, em 7 de março de1990.

Voltando à nossa reunião na Executiva da CUT, nos anos 80. Com toda esta história e vivendo um novo momento político brasileiro, queríamos as considerações de Prestes. Com seu jeito muito simples, extremamente afável, manteve um diálogo muito aberto, tranqüilo. Incentivou-nos profundamente a investir na organização e conscientização dos trabalhadores. Na época debatíamos muito as repercussões decorrentes para os trabalhadores da implantação das novas tecnologias.

Perguntei-lhe sua opinião e como agir. A resposta foi direta: “A ciência e as novas técnicas são uma conquista da humanidade e a ela devem servir. Os sindicalistas devem definir e lutar por compensações, aperfeiçoamentos profissionais e benefícios para os trabalhadores e a sociedade”.

Obviamente podemos discordar das idéias de Prestes e de seus movimentos políticos. Mas são inegáveis as contribuições deste porto-alegrense à história brasileira, para um desenvolvimento mais justo e altivo de nossa nação. O registro de sua história em sua cidade natal é mais do que merecido. O Memorial Luis Carlos Prestes é uma grande contribuição à história brasileira e à cultura de nossa Cidade.

Se quisermos entender a marcha da Coluna Prestes como um ato de força, é preciso compreender que se trata de legítima defesa contra governos autocráticos, ditatoriais e sem nenhum compromisso com o bem estar do povo brasileiro. Sempre que Prestes pode participar da vida nacional em condições minimamente democráticas (Constituinte de 1946, retorno do exílio em 1979) o fez!

Com relação às tratativas com Oscar Niemeyer, reunidas todas as informações pedidas pelo arquiteto uma equipe da Secretaria Municipal do Planejamento foi ao Rio de Janeiro encontrar-se com o renomado profissional, profundo conhecedor de Prestes.

Ele gostou muito do local escolhido nas proximidade da avenida Ipiranga e do Guaíba e adaptou o seu já consagrado traço no contexto daquele ambiente. A criação dos ambientes internos foi definido seguindo as diversas fases da trajetória de Prestes. A equipe retornou com os traços e as diretrizes definidas.

O processou demorou até 2009, quando na gestão do então prefeito José Fogaça, o empreendimento foi viabilizado através da Lei Nº 10.695, de 17/6/2009, que concede parte (a metade, aproximadamente) do terreno à Federação Gaúcha de Futebol que, em contrapartida tem como compromissos a construção do Memorial Luis Carlos Prestes, a manutenção permanente dos equipamentos e os serviços de segurança e vigilância do local. Nesta fase da implantação do empreendimento, o mesmo já contou com a assistência profissional do bisneto do Oscar Niemeyer, Paulo Sérgio.

Porto Alegre ficou maior com a exposição da vida de um dos seus filhos ilustres. O conhecimento de sua história, suas idéias e suas lutas contribuirão para uma cidade mais reconhecida no contexto internacional e para a construção de um mundo melhor para todos(as)!

Longa e proveitosa vida ao Memorial Luis Carlos Prestes!

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