PREVIDÊNCIA

Bolsonaro esconde reforma da Previdência, rejeitada por 71%

Por Paulo Moreira Leite

Em vez de tratar de um ponto real de seu programa de governo — a reforma a Previdência — Jair Bolsonaro aproveitou os discursos de posse no Planalto para falar da luta para “libertar (o Brasil) do socialismo,” denunciou “ideologias nefastas”, o “politicamente correto” e defendeu a “meritocracia”.  Compreende-se.

Ideia repudiada por 71% dos brasileiros (Data Folha, 1/5/2017), o projeto de passar o bisturi no sistema de aposentadoria e pensões que protege a velhice dos brasileiros é o compromisso fundamental da equipe econômica de Bolsonaro com a elite financeira que assumiu as rédeas do país depois da queda de Dilma Rousseff.

Nesse campo, o problema do novo governo é igual ao de seus antecessores: o apoio popular à Previdência. Com todos os defeitos que possui, ela é um sistema que funciona, garante o bem-estar na velhice — em particular dos mais pobres — e representa o embrião de um Estado de bem-estar que separa a civilização da barbárie, evitando as formas mais degradantes de exclusão social.

Falar em Previdência no dia da posse implicaria, para Bolsonaro, em chamar a atenção do país inteiro para sua prioridade número 1, um compromisso anti-popular que é lembrado 24 horas por dia por amigos, aliados e patrocinadores.

O efeito seria uma mosca na sopa, para lembrar um dos sucessos de Raul Seixas, o irreverente roqueiro perseguido pela ditadura militar. Poderia transformar a posse num momento de mal-estar e descontentamento, num despertar de consciências que muito provavelmente incluiria cidadãos que ontem vestiram verde-amarelo para dar pulos e gritos Esplanada dos Ministérios.

Em qualquer caso, seria um péssimo cartão de visitas para um presidente que, no primeiro mandato, já chegou ao Planalto com as mais reduzidas expectativas entre todos antecessores eleitos por voto direto após a democratização. Todos os outros chegaram ao Planalto com mais de 70% de bom e ótimo. Bolsonaro ficou em 65%.

Mais fácil do que falar de um tema da vida real era falar em “libertar (o Brasil) do  socialismo”, defender a “meritocracia” e denunciar “ideologias nefastas” que “dividem os brasileiros”, numa repetição da armadilha ideológica que ajudou a construir a ditadura de 64.

Sabemos que o golpe que derrubou João Goulart para instalar uma ditadura que se prolongou por 21 anos anunciava que sua meta era salvar o país do “comunismo.” Multidões que participaram das célebres “Marchas com Deus pela Família” acreditavam nessa ideia.

Mas os dois lados sabiam que o “comunismo” atribuído a Goulart era um espantalho ideológico. Jango era um dos homens mais ricos do país e  orientava-se por um pensamento inspirado pelo trabalhismo de Getúlio Vargas e pela doutrina social do Vaticano II, do Papa João XXIII, inspirador de Francisco.

Seu projeto social mais importante envolvia a reforma agrária, processo que, na mesma época, fora realizado no Japão e na Coréia do Sul, com apoio dos EUA, com a finalidade, justamente, de construir sociedades mais equilibradas e menos desiguais, situação que poderia servir de barreira à expansão de governos esquerdistas considerados radicais.

Da mesma forma, aquilo que Bolsonaro hoje define como “socialismo” não passa de um conjunto de  projetos sociais de distribuição de renda  e ampliação do mercado interno, sem o mais leve arranhão nos fundamentos do regime capitalista.

Alguns foram construídos ao longo do século XX, quando o país procurou erguer instituições capazes de responder — em geral timidamente — a herança escravocrata.  Outros nasceram nos últimos 20 anos, em particular no período Lula-Dilma. Nos dois casos, foram medidas que trouxeram benefícios às camadas mais pobres, ampliaram direitos dos assalariados — e também oferecem imensas oportunidades de crescimento e lucro para o setor privado.

Bolsonaro chegou ao Planalto para dar continuidade ao desmanche social iniciado por Michel Temer. Essa é sua missão e já está sendo cobrado por ela. O país irá resistir.

O resto é discurso.

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