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Uma aliança ampla mas não pra ficar passando pano, e sim reestabelecer o Pacto da Constituição de 1988, diz Franklin Martins em entrevista

PACTO DE ELITES NÃO RESOLVE CRISE DO PAÍS

“Teremos uma reação da sociedade, do povo, que é quem está se lascando. O povo brasileiro, de modo geral, não sai reagindo de primeira. A experiência mostra para ele que, quando ele reagiu cedo demais, ele se ferrou. Vira bucha de canhão. Tem essa percepção difusa. Não quer dizer que o povo brasileiro seja devagarinho, pusilânime. Não. Ele espera encontrar situações onde ele perceba que o lado de lá está dividido. Hoje o lado de lá está se dividindo. O que eu encontro de gente hoje na rua desancando o Bolsonaro e elogiando o Lula, eu não encontrava há seis meses. Tem alguma coisa acontecendo. Tem alguma coisa vindo.”

Essa é a avaliação do jornalista Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social no governo Lula e um dos mais experientes analistas políticos do país. Em entrevista ao TUTAMÉIA, ele comenta a situação do país depois das manifestações deste início de setembro e avalia possíveis desdobramentos da crise nacional. Fala sobre o fracasso da tentativa golpista de Sete de Setembro, o esvaziamento de Bolsonaro, a tentativa de construção da terceira via e a necessidade de uma ampla aliança para restabelecer o pacto da Constituição de 1988 (clique no vídeo para ver a entrevista completa e se inscreva no TUTAMÉIA TV).

BOLSONARO FOI COMER ALPISTE NA MÃO DO TEMER

“Bolsonaro gostaria de dar um golpe. No Sete de Setembro, ele tentou ir para o tudo ou nada. Estava se sentindo muito encurralado, nas cordas e tentou ir com tudo para virar o jogo. Foi com tudo, não conquistou o tudo e não conseguiu virar o jogo. Tanto que ele fez aquela coisa que, do ponto de vista dele, da personalidade dele, da imagem que ele vende, foi um desastre. Ao invés de ele ser o todo poderoso, que faz o que quer, ele foi comer alpiste na mão do Temer.”

O episódio teve consequências danosas para Bolsonaro, afirma o jornalista:

“O impressionante é que Bolsonaro tenha recuado. Bolsonaro não recua. O tempo todo, quando ele se sente inseguro, enfraquecido, sem saber o que fazer, ele compulsivamente avança e agride. Dessa vez, ele deu uma recuada com uma carta escrita pelo Michel Temer, onde ele no fundo pede desculpas, ninguém acredita, nem ele acredita, mas esse processo todo deixou o Bolsonaro mal. Não é à toa que as redes sociais do Bolsonaro exibiram uma forte queda de atuação e de aprovação a ele. Eu acho que está crescendo uma dúvida na base do Bolsonaro. Esse é um problema que ainda está no começo, mas é algo que tende a crescer. De qualquer forma, acho que Bolsonaro saiu enfraquecido desse episódio. Ou seja, ele partiu para o tudo ou nada, ele não ganhou o tudo e, para não ficar com o nada, ele foi obrigado a ficar em alguma coisa que atinge a imagem dele, atinge a personalidade dele e mostra claramente que o Bolsonaro pisca. O Bolsonaro piscou.”

TERCEIRA VIA

Isso também propiciou o reforço, o aprofundamento de um processo que já vinha se delineando antes mesmo das manifestações de Sete de Setembro: a tentativa de articulação da chamada terceira via.

“São forças conservadoras, que têm uma aliança com Bolsonaro no programa econômico, que é um programa de destruição do povo e, portanto, de destruição do Brasil. Eles acham que é possível ganhar dinheiro mesmo se o povo estiver se lascando. E o que a experiência brasileira mostra é o seguinte: o Brasil só cresce quando o povo for incorporado, porque a grande arma do Brasil, a grande força do Brasil é o tamanho de seu mercado interno. Se não se dá salário, não se dá emprego, as pessoas não ganham dinheiro, não tem investimentoa economia vai afundando. Então eu acho que começou a aparecer em setores do establishment brasileiro que têm uma visão não de curtíssimo prazo, mas de curto para médio prazo, um sentimento de que desse jeito não vai dar”, diz o jornalista.

Ele continua: “É um setor do empresariado que, mesmo não tendo um projeto de país, ele olha e diz: ´Pô, tá difícil demais, a gente tem de fazer alguma coisa porque, se a economia não voltar a crescer, se não tiver algum grau de entendimento, se o Bolsonaro continuar a fazer maluquices, desgovernando o país, nós vamos nos afundar´. Então começaram a botar mais gás na questão da terceira via.”

PACTO DE ELITES

Apesar do poderio econômico dos articuladores, eles não navegam em águas calmas, avalia Martins:

“A terceira via encontra enormes dificuldades para produzir um candidato e, mais do que isso, para produzir um programa capaz de dialogar com a maioria do país. Ela tem falta de um programa capaz de ser defendido diante de 150 milhões de eleitores no Brasil. Um programa que contemple as necessidades, os interesses, os anseios, as esperanças, o desalento dessa multidão. Vai fazer isso com teto de gastos? Vai fazer isso dizendo que tem de tirar direito trabalhista? Vai fazer isso dizendo que tem mesmo que botar prá quebrar e ponto final, e que nós temos de bater continência para os Estados Unidos? É absolutamente inviável!”

O jornalista segue: “Eles têm um problema de programa. O Brasil hoje não se resolve com pacto de elites que ganha uma eleição. O Fernando Henrique ganhou as eleições em 1994 e 1998 porque ele enfrentou o principal problema que o Brasil tinha na época, que era o problema da inflação. Quem não enfrentar o principal problema das multidões no Brasil não ganha eleição. Pode até chegar ao poder dando um golpe, como o Temer fez. Mas ganhar eleição?! Hoje em dia votam 150 milhões de brasileiros, votam 60% da população.”

TURMA DO PASSA PANO

Em resumo, diz Martins, “tudo aponta para uma disputa onde o Lula será um dos candidatos. Do outro lado, o Bolsonaro parece ser o candidato mais provável, mas pode também se enfraquecer e pode surgir um candidato da terceira via. O problema é que não estou vendo como um candidato da terceira via vai chegar lá, no segundo turno, a não ser que o Bolsonaro desidrate.”

O fato é que, hoje, conforme Franklin Martins afirma, “continuamos a ter um presidente que não tem nenhum compromisso com a democracia e que vai promover tumulto, arruaça, confusão, agressões tentando evitar o seu destino certo, que é uma derrota eleitoral. E tentando evitar um outro destino, que deveria ser certo para ele também, que é pagar na cadeia pelos crimes que cometeu ao longo de todo esse tempo. Mas aí a turma do passa pano, onde muita gente de terceira via entra em cena também.”

FREIOS EM BOLSONARO

Na avaliação do jornalista, Bolsonaro não tem condições políticas, hoje, para dar um golpe, fechar Congresso etc. O que não significa que ele vai ficar quieto:

“Ele vai fazer maluquice o tempo todo. Tem que botar freio no Bolsonaro. Ele devia ter sido afastado do governo há muito tempo.”

O jornalista prossegue:

“É inacreditável que um Congresso que foi capaz de fazer o impeachment da Dilma alegando pedalada fiscal, esse Congresso, depois de tudo que o Bolsonaro fez, fica olhando para o teto. Vamos ter claro: as instituições no Brasil não estão funcionando e há muito tempo. Elas só funcionam quando é contra os inimigos do establishment.”

Não se trata de algo novo:

“É aquela velha história que se falava na República Velha: para os meus amigos, tudo; para os inimigos a lei. O deles é o seguinte: para os meus amigos as instituições olham para o teto, para os meus inimigos elas saem caçando. Isso não é democracia. Isso é uma disfunção monumental na democracia brasileira, tanto que temos um pacto interrompido. O pacto da Constituição de 88 foi rompido por eles.”

ALIANÇA AMPLA PARA ISOLAR BOLSONARO

“O Bolsonaro está mais fraco, mas isso não quer dizer que ele não é perigoso, não quer dizer que ele não será agressivo. É necessário isolá-lo cada vez mais. É necessário ter a aliança mais ampla possível. Mas não uma aliança mais ampla possível para ficar passando pano. É uma aliança mais ampla possível com o objetivo claro: nós precisamos reestabelecer o pacto da Constituição de 88. Isso quer dizer que quem organiza as instituições é o voto popular. Não é dono de jornal, não é dono de banco, não é dono de empresa, não é a embaixada dos Estados Unidos, não é Departamento de Justiça, não é setor do Ministério Público. Não é Supremo. Quem organiza é o voto popular.”

Isso tem muito problema em setores do establishment no Brasil. A nossa herança escravista é uma coisa de um peso que existe uma dificuldade monumental nas chamadas elites entre aspas. Eles têm um problema muito grande com a ascensão social.

O nem-nem é quem não quer a extrema direita, mas ao mesmo tempo não quer a inclusão social, que é oportunidade para o povo. O Brasil está se confrontando com um governo que está destruindo o país, destruindo o povo, destruindo a unidade nacional, por um lado. E de outro lado você tem uma alternativa de voltar a construir isso. Alguns setores vão com Bolsonaro e outros setores eu espero que tenham cabeça, inteligência, saúde emocional, um compromisso mínimo com o país e com o povo para entender que precisamos ter uma reafirmação do pacto democrático da constituição de 88: quem tem que definir o rumo das políticas pública e das organizações de estado é o voto popular.

RANÇO ESCRAVISTA

As elites conseguirão participar dessa aliança?

“Alguns setores vão com Bolsonaro e outros setores eu espero que tenham cabeça, inteligência, saúde emocional, um compromisso mínimo com o país e com o povo para entender que precisamos ter uma reafirmação do pacto democrático da constituição de 88: quem tem que definir o rumo das políticas pública e das organizações de estado é o voto popular.”

Ele continua: “Eles vão ter que lavar um pouco o corpo do ranço do escravismo. Não dá para ter um ranço escravista e querer construir um Brasil grande. Botar a população de fora e só deixar o rico e a classe média. Isso é intolerável.”

As dificuldades para isso não são pequenas:

“É um problema complexo porque nós não temos liderança no empresariado como tivemos em outro tempo. Existe algum Antonio Ermírio? Existem pessoas capazes de perceber a importância da industrialização? O Brasil está vivendo um processo de desindustrialização e fica por isso mesmo.”

INCLUIR O POVO E RECONSTRUIR A ECONOMIA

Para mudar esse rumo, diz Franklin Martins, “é fundamental o Estado. Ter políticas públicas, indução. Fica esse negócio, teto de gastos, estado mínimo. Não tem que ter estado fazendo besteira, torrando dinheiro, como está fazendo agora, por exemplo dando 20 bilhões para os deputados botarem emendas para fazerem o que quiserem. Isso é torrar dinheiro. O que precisa são programas de investimentos com obras públicas, investimento em tecnologia, em educação, em saúde, que reorganizem o país. Isso é fundamental para sair da crise. É só pegar o que o Biden está tentando fazer nos Estados Unidos.”

O jornalista reforça:
“Se não tiver Estado, não saímos dessa crise. A pandemia mostrou um esgotamento do neoliberalismo no mundo em proporções avassaladoras. Não vai dar para continuar desse jeito que está.”

E aponta:
“O Brasil tem que voltar a crescer. Para voltar a crescer, tem que investir. Para investir, tem que o Estado começar a investir. E, para isso, precisa colocar o povo em primeiro lugar. Não pode querer excluir o povo do país.”

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