Brasil/Meio Ambiente

Mourão, General mentiroso, tentou golpe da Samaúma para maquiar imagem do Brasil na COP26

Operação inexistente na Amazônia comprova desonestidade do Brasil na COP26

por Marcelo Leite

Bem que a delegação brasileira tentou fantasiar-se de boa moça na cúpula do clima em Glasgow. Elevou de 43% a 50% a meta de corte de gases do efeito estufa em 2030 e assinou um compromisso de 96 países para reduzir em 30% o metano nesta década e uma declaração de boas intenções sobre florestas, com 124 nações.

Só que não: neste caso, também, foi golpe. “Golpe” no sentido de conto do vigário, logro, estelionato, engodo. Jair Bolsonaro não tem intenção de cumprir nada do que promete.

O cheiro de queimado vem das ações, omissões e enganações do governo. Elas não se limitam ao ocupante do palácio do Planalto, envolvem também seu vice, Hamilton Mourão.

Mesmo rebaixado a zelador da Amazônia, o general se fez cúmplice do presidente ao ensaiar comédia para inglês ver na COP26. Cúmplice ludibriado, pois Bolsonaro deixou Mourão falando sozinho ao não renovar sua terceira excursão à floresta, a operação GLO (garantia da lei e da ordem) Samaúma.

A revelação está em reportagem de Vinicius Sassine: durante 45 dias, o vice deu como real uma operação militar que nunca existiu. O famoso caô: em 24 de agosto, Mourão anunciou em reunião do Conselho da Amazônia que a terceira GLO sob seu comando seria estendida, como teria acordado com o Ministério da Defesa.

A renovação nunca aconteceu. A Samaúma acabou uma semana depois, mas não a disposição do vice para aplicar nova demão de verniz verde-oliva na antipolítica ambiental de Bolsonaro.

O general dissera na ocasião que tinha conversado com o ministro da Defesa, Walter Braga Netto, “para que estenda a GLO, com os recursos que restaram, de modo que, quando os nossos negociadores chegarem a Glasgow para a COP26, em novembro, se tenham números positivos”.

Mourão errou na concordância e na jactância. Suas GLOs —Verde Brasil, Verde Brasil 2 e Samaúma— torraram R$ 550 milhões para combater desmatamento e queimadas sem obter resultado significativo.

Em 2020, a destruição da floresta Amazônia alcançou 10.851 km², recorde em 12 anos. Um aumento de 7% sobre o dado de 2019, que já havia retornado ao patamar de cinco dígitos.

O resultado deste ano ainda não saiu, embora a estatística do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) costume ser publicada antes das COPs, ao menos quando a cúpula do clima se realiza em dezembro. A data de divulgação não é fixada pelo Inpe, mas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

De todo modo, entre agosto de 2020 e julho de 2021, período analisado com imagens de satélite, houve 8.793 km2 de alertas de desmatamento pelo sistema Deter do Inpe, menos confiável para mapear área desmatada que o Prodes, do qual sai o dado anual oficial. O Deter sempre aponta número menor que o Prodes.

Se o resultado oficial, que já deve estar pronto, fosse bom, é de esperar que o Planalto o anunciasse antes de Glasgow. O único dado recente não veio do governo e é ruim para o Brasil: suas emissões de carbono em 2020 subiram 9,5%, segundo o consórcio de ONGs Seeg.

É isso o que o Brasil tem para mostrar em Glasgow: descontrole sobre sua maior fonte de emissões de carbono. Com o prontuário de agressões ao ambiente no governo Bolsonaro e sua propaganda enganosa, de nada adianta reciclar meta de seis anos atrás, assinar declaração de florestas e prometer redução de metano.

Planalto e o Congresso apinhado de pecuaristas são sócios na destruição da Amazônia e do cerrado. Mourão é o boi dessas piranhas.

Marcelo Leite
Jornalista de ciência e ambiente, autor de “Psiconautas – Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira” (ed. Fósforo)

Fonte: FSP 06/11/2021

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