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Recusa do papa a convite de Temer expõe isolamento do Brasil pós-golpe

Isolado até pelo papa, Temer conta apenas com o que resta da base parlamentar, após delações de executivos da Odebrecht, enquanto é torpedeado por Eduardo Cunha, seu ex-aliado e hoje presidiário em Curitiba

Do Correio do Brasil

Com a diplomacia em frangalhos após a passagem dos senadores José Serra (PSDB-SP) e seu substituto, Aloysio Nunes, tucano por São Paulo, no Itamaraty, o Brasil tem sido afastado dos centros de decisão aos quais frequentava no tempo em que durou a democracia no país. Em meio a um golpe de Estado que acaba de completar um ano, tanto Serra quanto Nunes foram citados por delatores da Operação Lava Jato como corruptos. Ambos teriam recebido dinheiro de propina, em contas no exterior. São investigados, agora, por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).

Papa Francisco

Diante do quadro gravíssimo que se configura no Ministério das Relações Exteriores, entre outros também comandados por suspeitos de integrar uma quadrilha formada para assaltar os cofres públicos, a recusa do papa Francisco ao convite do presidente de facto, Michel Temer, resume o isolamento de seu governo.

Em carta, o papa informa a Temer de sua recusa ao convite para visitar o Brasil para as celebrações dos 300 anos da aparição de Nossa Senhora Aparecida, completados em 2017. O convite partiu de Temer, já no Palácio do Planalto, após a cassação da presidenta Dilma Rousseff, no final do ano passado.

Convite recusado

Em seu estilo direto, ainda que terno, Francisco não se furta a uma repreensão àqueles que integram o governo brasileiro. Em especial, o mandatário imposto após o golpe de Estado, em curso no país. Francisco cobra o fim das medidas que agravam a situação de miséria em que se encontra a parcela mais carente dos brasileiros, atingida por sucessivas perdas de direitos sociais.

“Sei bem que a crise que o país enfrenta não é de simples solução, uma vez que tem raízes sócio-político-econômicas, e não corresponde à Igreja nem ao Papa dar uma receita concreta para resolver algo tão complexo”, diz ele em um trecho do documento.

“Porém não posso deixar de pensar em tantas pessoas, sobretudo nos mais pobres, que muitas vezes se veem completamente abandonados e costumam ser aqueles que pagam o preço mais amargo e dilacerante de algumas soluções fáceis e superficiais para crises que vão muito além da esfera meramente financeira”, acrescentou.

Diplomaticamente, Francisco atribui a recusa do convite de Temer à sua intensa agenda. Mas afirma que acompanha “com atenção” os acontecimentos na maior nação da América Latina. Por último, o papa adverte Temer a não “confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado”, em um momento em que o governo tenta aprovar reformas que agradem os investidores.

Em agosto do ano passado, Francisco enviou uma carta em apoio a Dilma Rousseff. O golpe já estava em marcha.

Temer e Cunha

Para agravar, ainda mais, o quadro de iniquidade que envolve os atuais inquilinos do Palácio do Planalto, o presidiário Eduardo Cunha, deputado cassado do PMDB fluminense, conseguiu vazar um bilhete, de sua cela, no qual aponta Temer como cúmplice na obtenção de dinheiro sujo. Do complexo penal onde está preso, em Curitiba, Cunha fez chegar a um dos diários conservadores paulistanos um bilhete no qual rebate as declarações de Temer a um canal da TV aberta.

Cunha aborda dois pontos da entrevista concedida por Temer, no sábado. O presidiário retifica o que disse o ex-companheiro de legenda quanto à reunião com um executivo da Odebrecht. No encontro, teria acertado o repasse de US$ 40 milhões em propina para o PMDB. O encontro ocorreu em julho de 2010, segundo o delator da empreiteira, e teve a participação de Cunha.

A reunião foi “agendada diretamente com” o hoje presidente de facto do país.

‘Se equivocou’

“A referida reunião não foi por mim marcada. O fato é que estava em São Paulo, juntamente com Henrique Alves. Almoçamos os três juntos no restaurante Senzala, ao lado do escritório político dele. Após outra reunião, fomos convidados a participar dessa reunião já agendada diretamente com ele”, afirma Cunha, no bilhete. E acrescenta que Temer “se equivocou nos detalhes”.

Cunha acrescenta, porém, que na reunião “não se tratou de valor nem (houve) referência a qualquer contrato daquela empresa”.

“A conversa girou sobre a possibilidade de possível doação. Não corresponde a verdade o depoimento do executivo”, afirma o deputado cassado. Temer já confirmou, em nota, a existência da reunião, mas também nega ter pedido repasse de propina durante o encontro.

Vice sabia

O preso afirma, também, que discutiu com Temer a decisão de abrir o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Em dezembro de 2015, ele teria discutido o assunto com o então vice-presidente, dois dias antes de oficializar a decisão. Cunha diz que o parecer foi “debatido e considerado por ele correto do ponto de vista jurídico”.

Na entrevista, Temer contou que foi informado por Cunha de que ele não abriria os processos. O PT prometera votos favoráveis a ele no Conselho de Ética. Mas que depois informou que o acordo havia ruído, uma vez que o PT mudara de ideia. A direção petista, no entanto, nega qualquer tratativa com Eduardo Cunha sobre o assunto.

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