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Quando o progresso vira barreira: a solidão dos idosos na era digital (Por Paulo Timm

    Transformar direitos básicos em aplicativos, senhas, QR Codes e portais digitais pode parecer eficiência para quem domina a tecnologia, mas se torna uma barreira cruel para quem envelheceu em um mundo diferente.

    Segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, a população do estado do Rio Grande do Sul era de 10.882.965 habitantes.

    O estado ocupa o sexto lugar entre os mais populosos do Brasil.

    Deste total 20,15% da população tem 60 anos ou mais, o que totaliza cerca de 2,19 milhões de pessoas.

    É o Estado com maior número de idosos, com uma expectativa de vida média , também elevada, de 76,49 anos, conforme dados divulgados pelo Departamento de Economia e Estatística (DEE) para o triênio 2022-2024.

    Em 2070 seremos 40% da população.

    O TSE  mostra que nesta eleição, há 2.543.219 eleitores com mais de 60 anos, representando 29,82% do eleitorado estadual.

    Lamentavelmente, todo este vasto colégio eleitoral não tem muito espaço nas campanhas pelo voto. Eu adverti sobre isso nas candidaturas à Presidência da República em 2022. Nenhuma repercussão.

    Volto a clamar sobre a necessidade de maior atenção aos idosos no país, outrora “país do futuro”, com maioria da população jovem.

    Na verdade, somos presos a este mito, enquanto vamos envelhecendo rapidamente sem a atenção da Sociedade.

    Crianças e adolescentes, por exemplo, não só dispõem de um Estatuto próprio, como , também, um instrumento efetivo em cada município de fiscalização da Lei, os Conselhos Tutelares.

    Já estive, inclusive, na Comissão dos Idosos na Câmara dos Deputados, em Brasília, levando a idéia de criação de Conselhos de Proteção às Pessoas Idosas, não sendo devidamente atendido.

    Há duas semanas, em encontro em Porto Alegre, como o Senador Paulo Paim, entreguei-lhe o mesmo pleito, tendo ele prometido, ainda no que lhe resta do mandato, encaminhar o assunto.


    Enquanto isso, abundam as reclamações de idosos com a falta de cuidados em outros campos da sociedade, como por exemplo, o abuso do recurso às mídias eletrônicas no atendimento ao público.

    A maior delas se refere ao site GOV do Governo Federal, cujo acesso é incrivelmente difícil para maiores de 60 anos que não dominam as “teclas”. Um inferno.

    Fiz, também, muitas reclamações, sem resposta. Mas o procedimento se generaliza, em nome do desenvolvimento tecnológico na prestação de serviços.

    Na verdade, trata-se de uma atitude discriminatória contra os mais vividos que acaba excluindo-os do atendimento, só possível graças aos filhos e netos mais próximos.

    Já fiquei três meses sem Plano de Saúde em virtude das mudanças nos controladores exigindo novo registro dos associados, até que encontrei uma boa alma, jovem, numa dessas lojas de celulares.

    Agora, eis que vivo sozinho, sempre que tenho problema com o Note e o celular, me socorro com ela.


    Hoje mesmo, inseri na News Letter do meu Programa na Radio Cultural FM/Portal Litoral Norte, um desabafo digno de ser inserido neste artigo. Ei-lo:


    “OS IDOSOS E A TECNOLOGIA – Uma advertência – Por Alessandro Lo-Bianco
    Não é uma crítica: é um alerta!

    Não podemos celebrar a modernização enquanto empurramos milhões de idosos para a invisibilidade.

    Transformar direitos básicos em aplicativos, senhas, QR Codes e portais digitais pode parecer eficiência para quem domina a tecnologia, mas se torna uma barreira cruel para quem envelheceu em um mundo diferente.

    Quando uma pessoa mais idosa precisa implorar ajuda para marcar uma consulta médica, acessar um benefício ou pagar uma conta, não estamos diante de progresso. Estamos diante de uma nova forma de exclusão.

    O discurso da inovação virou, em muitos casos, uma cortina de fumaça para esconder a retirada silenciosa do atendimento humano.

    Bancos fecham agências, empresas eliminam centrais presenciais e órgãos públicos transferem responsabilidades para telas de celular.

    O cidadão que passou décadas trabalhando, pagando impostos e ajudando a sustentar o Estado passa a ser tratado como um problema operacional. Entra a conveniência corporativa no lugar da cidadania.

    Uma democracia madura não mede seu sucesso pela velocidade dos seus aplicativos, mas pela capacidade de garantir direitos a todos. Quando o acesso aos serviços depende da alfabetização digital, da posse de um smartphone moderno ou da ajuda de familiares, o Estado falha em sua função mais elementar: incluir.

    A dependência forçada de filhos e netos não representa autonomia; representa a transferência da responsabilidade pública para a esfera privada, aprofundando desigualdades e ampliando a vulnerabilidade dos mais velhos. Tecnologia que exclui não é avanço, é retrocesso disfarçado de modernidade.

    Uma nação que abandona seus idosos em nome da eficiência pode cair futuramente em uma crise muito maior do que qualquer atraso tecnológico.

    O verdadeiro desenvolvimento acontece quando a inovação amplia direitos e fortalece a dignidade humana.

    Tudo o que vier depois disso é apenas comodidade para alguns e abandono para muitos.”

    PAULO TIMM, aposentado, é economista, formado pela UFRGS. Pós-Graduado na ESCOLATINA, da Universidade do Chile e CEPAL/BNDES. Foi professor da Universidade de Brasília – UnB – e Técnico do IPEA, órgão do Ministério do Planejamento, em Brasília, onde residiu por 35 anos e onde fez sua vida profissional e pública.


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